Mentiras e solidão


Um acontecimento insólito fez as engrenagens cansadas da minha caixola de pensar trabalharem sem parar.  O que poderia ter sido um episódio até desconfortável, mas sem maiores consequências se transformou em uma batalha inesperada e magoada, assim do nada.  E claro, totalmente desconfortável para os presentes, envolvidos ou não no assunto.Fiquei pensando sem parar nas dimensões e nos transtornos da mentira.

Para início de conversa do que se trata exatamente a mentira? Meias verdades são mentira? Somos seres tremendamente permissivos com nossas próprias fraquezas, e volta e meia justificamos uma ou outra mentirinha como algo sem maiores danos. Sei que algumas até o são, e que algumas vezes são bem-intencionadas.  Se visitamos um recém-nascido, um daqueles magrinhos e murchos, dizemos logo para a mãe ansiosa:”Que lindinho!”. De certa forma falamos a verdade, pois o que vemos nessa cena é a beleza da maternidade sempre. Essa dimensão da “mentirinha” que anima, que consola, chega a ser incentivada como parte de comportamento cortês e educado.

Quase sem perceber estendemos essa permissão a outras formas de mentir. Meias verdades não são consideradas mentiras, são omissões. Mas sempre são? Mandar dizer que não está não é mentira, é necessidade. Elogios vazios , desculpas tortas, tudo vai passando pois tudo tem motivo e justificativa que permitem mais essa concessão.

A coisa vai piorando, a vista vai engrossando, e logo as infidelidades e outras formas de traição estarão sendo encobertas com mentiras cada vez maiores, e que podem causar muito mal mesmo a todos os envolvidos. Ainda assim, para quem as conta existe a piedosa justificativa de querer evitar o sofrimento de quem deverá fingir que acredita. Parece não passar por suas cabeças que para “evitar o sofrimento”, basta não cometer o que pensa que vai magoar outro e depois não mentir.

A verdade é que a mentira ofende. Ofende o intelecto do outro, que por vezes se sente obrigado a fingir acreditar. Ofende os sentimentos dos que confiam, ao ser descoberta. E pior ainda, faz todas as verdades já ditas parecerem mais outras mentiras. Porque confiança é algo difícil de conquistar e precisa ser conservada como item delicado que é.

Com minha boca grande e impulsiva acabei soltando um: “segue adiante, porque a vida segue.” Que conselho mal escolhido em péssima hora! Minha cortesia e educação nem sempre conseguem domar minha língua. Acho que os nervos dela etão por demais ligados ao cérebro. Não posso nem me desculpar porque seria nada senão outra mentira.

Esse é o grande problema a ser enfrentado pelo mentiroso: a solidão. Porque por maior que seja a tolerância de uma pessoa, por mais que perdoe ou finja não perceber, por mais que confie ou seja ingênua, uma hora, mais cedo ou mais tarde, ela vai encarar a verdade. E com ela, a mágoa, a tristeza, a raiva. E quando tudo isso for demais para suportar, ela parte. Segue adiante. Sem volta. Só restará ao mentiroso continuar mentindo, dessa vez para si mesmo. Dizer que foi melhor assim, ou que foi injustiçado, outra outra desculpa que possa inventar.

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