Truman revelou o Big Brother


O filme O Show de Truman retrata com primazia a crítica que os profissionais do cinema, e muitos teóricos da comunicação, fazem ao mundo televisivo, e aos efeitos alienadores que este produz no seu público. Essa produção americana de 1998, dos estúdios da Paramount Pictures, dirigida por Peter Weir, apresenta Jim Carrey no papel principal representando Truman, o primeiro ser vivo adotado por uma empresa, ainda no útero materno. O motivo, nada nobre, desta iniciativa era garantir os direitos de transmissão, ao vivo 24 horas, desta vida em desenvolvimento.

Após o nascimento, Truman é levado para a cidade cenográfica onde irá viver, crescer, estudar, trabalhar, casar, tudo registrado pelas milhares de câmeras escondidas responsáveis por transmitir o mais “autêntico” reality show que se poderia imaginar. No “céu” da gigantesca cúpula criada especialmente para o Show, o diretor e sua equipe técnica controlam atentamente cada passo, cada desejo, cada pensamento de Truman, e comandam todos os atores e figurantes que devem contracenar com esta incrível personagem para fazê-lo aceitar o que existe a sua volta como realidade. Tal estrutura parece a materialização do Panopticon, apresentado por Muniz Sodré em O Monopólio da Fala, “uma cela onde o prisioneiro é fixado espacialmente, como um ponto sempre controlável pelo olhar do vigia”. (p.16). Uma contradição, já que o diretor do Show, logo no início da trama, explica sua motivação, afirmando ter decidido representar uma vida por estar cansado da atuação de atores com suas emoções falsas.

O mundo de Truman é a materialização da ideologia pequeno burguesa, onde tudo é muito certinho, limpo, funcional e previsível, numa clara tentativa de controle de todos os aspectos e acontecimentos deste mundo., visando com isso construir uma personalidade para Truman que se encaixe perfeitamente neste mundo, aceitando sua condição. A TV quer dirigir a vida e ao tentar fazer isso, construindo uma subjetividade para Truman, acaba por sufocar as expressões subjetivas das audiências, que permanecem impassíveis, como que congeladas no espaço-tempo, aguardando por mais uma cena da vida de Truman, esquecidas de viver suas próprias vidas.

A constante necessidade de adaptação, para dar conta das manifestações espontâneas da natureza de Truman e seus questionamentos íntimos, acaba gerando uma obra sem roteiro definido e sem forma, caracterizada por uma certa descontinuidade, apresentando as explicações mais inverossímeis para as mudanças que se julgue necessário fazer para a manutenção desta existência ideal, sem que isso provoque qualquer mal estar nas audiências.

A maneira como o filme apresenta a relação da TV com a publicidade também é muito interessante. A lógica do programa obedece aos interesses dos patrocinadores, que com seu poder econômico, também exercem controle sobre o Show. Tudo é merchandising, tudo é vendável, sejam as roupas, objetos, comidas, ou simplesmente o estilo de vida, transformando Truman numa fonte de lucros assombrosos.

Outra personagem extremamente importante para compreensão da mensagem do filme é o diretor do Show. É ele quem fala pela TV, quem apresenta e justifica a lógica do mundo televisivo. Para ele a fórmula do sucesso do Show que criou é bem simples: “Truman nunca chegou perto da verdade porque aceitamos o mundo no qual estamos presentes”. Ao ser questionado sobre a falta de ética implícita na posse de um ser humano, impedindo-o de viver plenamente, ele argumenta que o mundo é doentio enquanto o programa, este sim, é o modelo de uma vida ideal, ambicionada por todos. Truman não é prisioneiro do Show, ele é quem, inconscientemente, escolhe permanecer na cela, vivendo em uma realidade muito mais confortável. Não há qualquer remorso quanto a se apropriar da vida de outro. Seu controle sobre tudo e todos, dentro daquele mundo paralelo que criou, o fazem se portar como um deus, que controla tudo de sua estação no céu, até mesmo o clima, o tempo e a fúria das marés. Quando perde o controle da situação, perde o controle de si mesmo, e, como um deus enfurecido, lança tormentas contra Truman, quase matando-o para eliminar qualquer dissonância em seu mundo ideal.

Apesar de todas as tentativas, a TV não consegue controlar todas as nuances da vida, nem consegue dar conta de suas manifestações espontâneas. Assim, após uma crise de identidade que nenhum subterfúgio melodramático conseguiu abafar, Truman decide finalmente fugir daquela realidade organicamente massacrante, em busca de emoções não previstas no roteiro. Ele navega em direção ao horizonte, só que em seu mundo tudo tem limite, até mesmo a falsa imensidão dos mares. Perplexo, ele descobre neste espaço uma porta que se abre para um outro mundo, capaz talvez de apresentar respostas para sua ansiedade, mas titubeia a princípio, talvez secretamente com medo de sair do controlado mundo que conhecia plenamente para mergulhar nas possibilidades do desconhecido.

E pela primeira vez, ele ouve a voz daquele que controlou sua vida por anos a fio, que da abóbada celestial afirma saber quem ele é, o que ele sente, e ser ainda capaz de lhe dizer o que é seguro e onde é o seu lugar no mundo. O diretor exalta que ali ele é o astro, e que isso é o que importa, é o que fará tudo valer a pena. Ainda assim, Truman prefere partir de mãos vazias, desmoronando o império midiático que se havia construído ao redor de sua vida.

Interessante também é perceber como o cinema apresenta os espectadores do espetáculo televisivo, estáticos, apáticos da própria vida, absortos na programação. Tornam-se tão dependentes desta forma de espetacularização da vida, que a simples interrupção na transmissão causa verdadeiro frisson nas audiências, fazendo-as sair de sua imobilidade, uma vez que substituíram a própria vida pela contemplação da vida de Truman, e ficando sem Truman sentem-se sem vida. Apesar desta relação subliminar de dependência, o público comemora feliz a libertação de Truman, como se comemorassem sua própria liberdade. Ao final da breve comemoração, no entanto, vão procurar outro programa, como mostra a cena final do filme, preconizando que quem se submete a assistir TV permanece por ela condicionado, preso em suas posições físico-sociais e submisso à atração audiovisual alienante.

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