Quer ser meu amigo no Orkut?


Perdi-me no silêncio de meus pensamentos. Dezenas de pessoas ao meu redor, e eu me sentindo tão só. Olhei em volta e pensei haver algo errado comigo. Deveria estar interagindo, curtindo,trocando idéias, fazendo parte. Mas parte de que? Em minha mente o burburinho cessou e pude observar as pessoas com maior atenção. E foi então que percebi que não era a única que estava só. Todos estavam. Tentavam ansiosamente fazer parte de algo, qualquer coisa, para poderem sentir-se conectados ao Mundo e ao Outro, esse ser imaginário tão importante que dá sentido às nossas vidas.

Conectados. Lembrei-me do meu Orkut, com menos de duzentos amigos, e da ansiedade de alguns conhecidos que queriam lotar seus perfis. Conexão imediata com o Mundo e com o Outro, via internet. Resposta virtual a nossas carências humanas bem concretas.

Podemos até fingir que está tudo bem,que somos muito bem resolvidos emocionalmente, que nos bastamos ou que nossas agendas cheias de nomes e telefones são prova de grande interatividade social, mas o Orkut nos denuncia. Valorizamos as informações de nossos perfis, acrescentamos poemas e citações, classificamos nossos amigos, atualizamos informações e fotos constantemente, para demonstrar a sociedade virtual quão ativos somos. Instalamos aplicativos, jogos, notificadores de humor e avatares. Buddy Poke. Bonequinho esquisito, mas todos temos um. Eu tenho. Através dele nos abraçamos, beijamos, brigamos, dançamos, flertamos, tudo com apenas alguns cliques, sem esforço, sem risco de rejeição.

Eu sempre fiquei sem graça de classificar os amigos: uma estrelinha, um coração, sou sua fã, etc. Confesso que distribuo essas medalhinhas aleatoriamente e com grande generosidade. Mas me resguardo o privilégio de ser fã somente de quem eu realmente conheço. Grande pudor.

Não posso negar os benefícios da internet para alguns relacionamentos. Já reencontrei grandes amigos, pessoas importantes para mim, mantenho contato com parentes e amigos distantes, e conheci pessoas muito interessantes que talvez não tivesse a oportunidade de conhecer se não fosse a rede. O esvaziamento e a fragilidade das relações humanas não é culpa das novas tecnologias, desta nova realidade virtual, nem do Orkut. O Orkut é, no máximo,um indicador. Um mostruário de nossas ansiedades.

Hoje é sábado, ainda é cedo. Podemos tentar algo diferente neste sábado, que tal? Ao invés da balada estonteante, ou da atualização do Orkut e salas de bate papo, vamos tentar conversar um pouco com alguém. Alguém que realmente tenha alguma importância para nós, a quem queremos ouvir, para quem queremos falar. Ouvir, exercício difícil, único que nos permite verdadeiramente chegar mais perto do Outro. Tirar nossas máscaras, ser verdadeiros em cada gesto, tocar o outro com afeição ao invés de aferição. Se você não conseguir fazer nada disso ainda, tudo bem, deixe para mais tarde, ensaie com seu avatar. E se estiver se sentido muito sozinho, e isso puder ajudar, pode me add no Orkut mas não esqueça de deixar um scrap.

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