As corporações podem eliminar os sujeitos?


O documentário “The Corporation”, produzido e dirigido por Mark Achbar e Jennifer Abbott, com roteiro de Joal Bakan, descreve o surgimento das grandes corporações como pessoas jurídicas, mostrando sua atuação no mundo moderno e a maneira como os indivíduos se relacionam com estas empresas, seja do ponto de vista do executivo ou funcionário que se sente eximido da culpa de suas ações, seja da parte dos seus críticos e combatentes. Propõe ainda uma discussão, do ponto de vista psicológico, a partir do estudo de crimes cometidos por organizações transnacionais, para avaliar que tipo de “pessoa” seria esta que surge a partir de um precedente jurídico de 1886, e que acaba por se constituir em organismo autônomo, com interesses e objetivos próprios, que se sobrepõem aos dos indivíduos de carne e osso, responsáveis por sua existência e funcionamento.

No filme percebemos nitidamente como as empresas modernas se utilizam de todos os recursos ao seu alcance, inclusive os midiáticos, para agregar um novo valor simbólico a seus produtos e serviços, que excede, e muito, o seu valor intrínseco, sua capacidade de prover esta ou aquela necessidade humana ou social, estimulando um imaginário fantasioso que deve seduzir para o interesse e o consumo. Consumimos hoje muito mais pelo desejo do que pela necessidade, muito mais ilusões do que produtos. A paixão pelo consumo esvazia qualquer possibilidade de interesse pelo modo de produção, protegendo com isso a imagem pública das corporações, que muitas das vezes cometem uma série de crimes sociais ou ambientais para atingir seus propósitos.

Campanhas publicitárias e midiáticas transformam em espetáculo cada fragmento da realidade e do cotidiano, difundindo subliminarmente uma nova ideologia, desprovida de qualquer cunho filosófico e que atende tão somente às necessidades do capital e das corporações, empenhados na defesa da globalização dos mercados como alternativa única da modernidade para todos os problemas humanos e sociais.

Criadas como opção para tornar mais eficiente para o acúmulo de capital, as corporações seguem uma dinâmica própria que determina sua cultura corporativa, sua maneira de se relacionar com o mundo e a sociedade humana, e suas noções de responsabilidade social e política. Suas necessidades transnacionais de mercado acabam por influenciar políticas mundiais e locais. Estabelece-se uma nova ordem na contemporaneidade, cujo pilar passa a ser a economia, que submete, ainda que de forma velada, o poder tradicional do Estado ao poder emergente das corporações.

Novos conceitos sociais surgem, outros clássicos são reavivados, para tentar destacar a importância destas organizações para a sociedade. Funcionam, entretanto, como mais um simulacro da realidade. Muitas empresas se empenham em anunciar suas ações de responsabilidade social, omitindo seus ganhos nestas pequenas ações, seja de imagem pública ou de capital, mascarando toda sorte de violência humana, social ou ambiental que elas próprias cometem em nome do lucro. As ditas empresas cidadãs cumprem especificações criadas por elas mesmas para adquirir tal status, enquanto ao seu redor, no mundo todo, as grandes desigualdades sociais, e a conseqüente deterioração das relações humanas, transformam o exercício pleno da cidadania em mais uma desilusão da modernidade.

A ciência e a tecnologia, conceitos antes tão preciosos para a humanidade, pilares de um ideal de progresso, que um dia pudesse garantir a inclusão social plena, transformaram-se também em produtos a serviço do capital, promovendo uma crescente exclusão social, cada vez mais baseada na falta de acesso à informação.

As corporações seguem um conjunto de regras e motivações totalmente diferentes daqueles que permeiam a existência humana. Os grupos humanos, historicamente, sempre se constituíram baseados em normas éticas e morais estabelecidas pela coletividade para garantir a coexistência saudável, enquanto célula social. As grandes transnacionais, no entanto, não possuem qualquer outra referência, que não seja o lucro, para orientar sua existência. Não possuem qualquer noção moral ou ética que possa se sobrepor à necessidade do capital, não se sentindo responsáveis por quaisquer danos políticos, sociais, ambientais ou culturais que venham a causar. Um comportamento tão obsessivamente voltado para suas necessidades que os produtores do filme, baseados na opinião de profissionais de psicanálise, apontam para um diagnóstico de psicopatia. O que é de espantar é que alguns de seus funcionários e executivos parecem desenvolver uma distorção da realidade e da própria personalidade, agindo como se vivessem existências paralelas, uma na esfera de sua vida privada norteada pelos mais altos valores morais e éticos de seu grupo social, outra na esfera de sua vida profissional onde “veste a camisa”, promovendo e defendendo os atos amorais da companhia que representa.

Há algo muito interessante na maneira como todos estes fatos são apresentados neste filme, e que talvez passe desapercebido frente à quantidade de informações que ele condensa, e ao impacto que estas denúncias, associadas às imagens fortes, possam causar nas audiências: o documentário utiliza os mesmos recursos de espetacularização que denuncia. Seu formato busca atrair a atenção e conquistar o emocional, a empatia para com as idéias e ideais que apresenta, buscando resguardar seu lugar na mente de seu público. Essa pequena contradição aponta para uma questão crucial para os profissionais de comunicação: estará a sociedade do espetáculo já tão sedimentada nas mentes humanas, que para conseguir atenção para qualquer fato, seja qual for sua importância, torna-se necessário utilizar os recursos “alienantes” da mídia; ou poderíamos entender que o documentário exemplifica como as tecnologias midiáticas, que em si não são nem boas nem ruins, podem ser instrumento para dar voz e espaço a outros segmentos da sociedade, difundindo conteúdos mais profundos, contestadores e reflexivos? Haverá uma resposta correta? Talvez não. Mas é importante entender como nossa atuação na vida e no mundo, seja como profissionais de mídia ou indivíduos em busca de sua cidadania, pode influenciar no porvir da sociedade humana.

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