Grandes temas, edições pequenas


Um autor que sempre me impressiona pelas propostas reflexivas é Muniz Sodré. Não importa quantas vezes se leia um texto dele, sempre novas nuances se acrescentam ao pensamento. Estava relendo  “O Monopólio da Fala”, onde Sodré fala da “doação” de cultura e ciência com que os mass media contemplam suas audiências, e de como esta doação acaba por se constituir em um mecanismo de manutenção do poder capitalista vigente.  Um tema sempre atual e cada vez mais preocupante em tempos de transgenia, clonagem, e outras descobertas que despertam questionamentos e preocupações.

Neste texto, Sodré questiona os mecanismos comunicacionais televisivos, que impossibilitam uma resposta do receptor, substituindo o que se denomina comunicação real, uma interação entre emissor e receptor que permita um fluxo bilateral de mensagens pelo que ele irá chamar de monopólio da fala.

A Indústria Cultural pretende reivindicar para si uma aparência de “democracia cultural” ao divulgar/veicular assuntos com aspectos culturais ou científicos, estes no entanto são separados de seus códigos de produção e “esvaziados”, passando a possuir tão somente valor de consumo. Transformadas em produto de consumo, cultura e ciência estão ao alcance de qualquer um, dando uma sensação de “igualdade” aos receptores, todos excluídos do processo de produção das mesmas.

O próprio saber científico da atualidade está intimamente ligado aos interesses de grupos políticos e econômicos, e passa a se caracterizar como fonte de grande poder social. Segundo Alan Touraine, “ao proclamar a identidade do crescimento e do progresso social, a tecnocracia identifica o interesse social com os das grandes organizações, que, por vastas e impessoais que sejam, nem por isso deixam de ser centros de interesses particulares”.

Para E. Nagel, a prática científica compreende três momentos distintos, e sua legítima transmissão não poderá ocorrer desvinculada destas etapas, ou seja, é necessário que o cálculo abstrato esteja vinculado a uma prática ou experimentação, para que no terceiro momento o modelo ou interpretação que irá originar tenha significação científica real. É na associação destes elementos que reside o poder do saber científico.

Phillipe Roquelo irá criticar a veiculação do saber científico pelos media de forma bastante rigorosa, chegando a conclusão de que o problema consiste na eliminação da prática, que é um dos fundamentos do discurso científico.

Ao dissociar a teoria da prática, em seu discurso sobre a ciência, os media acabam por transformá-la em grandioso espetáculo, repleto de estereótipos e mitos relacionados a atividade científica. Esta que deveria se alimentar do poder questionador da mente humana, apresenta-se agora como modelo de certeza absoluta, calcada na suposta eficiência tecnocrática, e se solidificando como mais um discurso de dominação política. Hebert Marcuse relacionou o conceito de dominação à “racionalidade tecnológica” que, em vez de frear, justifica e estimula a dominação. A redução da ciência a mero fait-divers tem como propósito claro afastar seu público do que se constituiria a verdadeira transmissão do saber, e portanto do poder científico, saciando-se com a “impressão” de saber.

Da mesma forma ocorre com a cultura, onde a Indústria Cultural pré-estabelece um emaranhado de significações prontas, que não admitem o desejo, mas apenas a necessidade. Estimulando as necessidades a que pode atender, e distanciando o consumidor dos códigos de produção, os media afirmam-se pelo poder do código.

Muniz Sodré aponta “a necessidade de se quebrar a estrutura da informação, enquanto instância unilateral e unívoca do discurso”. A sugestão de um sistema televisivo que permita a reversibilidade do circuito comunicacional não aponta para grandes modificações, uma vez que as reações já estão instituídas pelo próprio sistema, que não poderá jamais admitir uma contradição interna. Mesmo a possibilidade de tornar cada indivíduo um emissor/receptor ao mesmo tempo, sugerida pela proposta de multivocidade, ainda se estrutura em um processo de separação radical entre falante e ouvinte.

Ao se perguntar então, no que consiste a força do pode controlador das mídias televisivas, Sodré irá afirmar que obviamente este não está nos equipamentos eletrônicos, que não contém um fim em si mesmos, tampouco no controle econômico das fontes de informação, mas no controle ideológico da fala, ou seja, na impossibilidade de resposta do ouvinte. A comunicação se dá por meio de um emissor que fala e fala, transmitindo suas informações para inúmeros receptores aos quais só é permitido ouvir e absorver, sem qualquer possibilidade de intervenção ou resposta. Isso constitui o Monopólio da Fala, uma forma de dominação exercida por aqueles que podem falar sem serem questionados, que exercem o controle pelo domínio do código, estabelecendo um novo processo de produção de significações ao qual os receptores deverão com certeza se submeter.

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