A culpa é de quem?


Ontem, alguns acontecimentos me levaram a refletir mais sobre a vida. Passei a maior parte do dia pensando nisso. A cada intervalo, em cada deslocamento.  Pensava na fragilidade concreta e no valor abstrato da vida.

Tudo começou  pela manhã, quando eu seguia pela Avenida Santa Cruz em direção a Bangú.  Em determinado momento avistei de longe um ônibus parado na pista oposta,  dificultando a passagem. No sentido em que eu seguia o trânsito estava um pouco mais lento. Olhando pela janela, vi uma senhora  na calçada da outra pista tirando fotos de uma roda enorme caída no portão da garagem de uma casa. Pelo tamanho deu logo para entender o motivo do ônibus parado na pista. Perdeu a roda e estragou o portão de alguém. De longe dava para reconhecer as cores de uma empresa famosa na Zona Oeste: FEITAL. Fazia sentido, ou quase isso. Ninguém sabe como uma empresa como essa pode continuar funcionando impunemente,  só o que se sabe é que ela mantém suas sucatas operando até que solte o último parafuso.

Esse reconhecimento não durou mais do que uma fração de segundos, e não chegou a me abalar. Olhava estática pela janela e continuava repassando minha agenda mentalmente. De repente, vi o que parecia ser uma colcha pesada embolada na outra extremidade do muro. Estranhei, fixei o olhar e vi os pés que denunciavam o que era o trágico volume. No susto, engoli em seco. Nos acostumamos a ver pequenas multidões ao redor de vítimas. Não havia. Ainda. Por isso demorei a perceber a cena completa. Mais tarde, lendo os jornais online, soube que passei poucos minutos depois do momento do acidente.

O trânsito andou, passamos pelo ônibus e vi que faltavam as duas rodas traseiras do lado esquerdo. Alguns metros adiante crianças saiam de uma escola municipal e muitas seguiam naquela direção. Essa cena tomou meus pensamentos o resto do caminho.  A primeira coisa que percebi foi meu cérebro tentando rapidamente processar a lembrança dos pés das pessoas que me são próximas, emocional e geograficamente. Eu nem pensei em fazer isso, só, de repente, percebi que estava fazendo. Talvez uma seqüela de morar numa cidade onde se está exposto a todo tipo de violência.

A não identificação me encheu de alívio. O excesso logo se tornou uma pontada de remorso. Meu alívio era a dor de outro. Talvez de uma daquelas crianças que retornava sorridente da escola, talvez de alguém que como eu estava desde cedo tentando cumprir seus compromissos. Talvez de um filho que se despediu com uma malcriação sem saber que seriam as últimas palavras que diria ao pai. Eu não sabia. Mesmo assim pedi desculpas silenciosas a essa pessoa desconhecida.

Uma roda. Um símbolo da civilização. E naquela manhã, uma arma fatal. Isso me fez pensar em como a vida é frágil. Por alguma estranha razão, tendemos a pensar em nossos corpos como fortalezas animadas por uma fonte inesgotável de vida. O medo da morte se direciona para a ameça das armas, pela invasão traumática dos corpos, e algumas doenças estigmatizadas como fatais. Ninguém pensa na possibilidade de morrer de gripe, acidentes domésticos ou do impacto de uma roda, um evento que une o improvável ao absurdo.

A vida é realmente um sopro,  chega em chorosa aspiração e parte em singelo suspiro. Pode comemorar centenários ou nos deixar em uma fração de segundos. Presa em um corpo que é um emaranhado de delicados sistemas e estruturas, e que pode desmoronar a qualquer momento. Ou resistir aos mais difíceis desafios. Só que tudo é imprevisível, aleatório. A única certeza é a incerteza e o irremediável fim.

Queria terminar logo e  ir para casa. Ver meus filhos, fazer uma janta agradável, conversar, ver um filme juntos. Perceber a fragilidade da vida nos lembra que ela não é eterna, mas pode ser intensa, calorosa, generosa. Se você está entendendo o que estou dizendo, aproveite para abraçar sua mãe, seu filho, seu amigo ou amiga. Não se contenha quando quiser fazer um carinho, não abra mão de seus sonhos, não se iluda com ilusões efêmeras dos modismos. Não diga aos outros como viver e nem deixe que te façam isso. Viva plenamente valorizando cada momento como se fosse único, porque ninguém sabe ao certo quando será o último.

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