A culpa é de quem? – cont.


La pelas 13 hs, um pouco mais que isso, passei de novo no local, dessa vez no sentido Campo Grande. Nessa hora já era evidente que ali era o local de um acidente. Antes de nos aproximarmos do ônibus já era possível ver pequenos grupos observando e comentando. O trânsito seguia lento, já que agora haviam mais veículos parados na via. Um reboque parecia aguardar para retirar o ônibus. Entre ele e a casa, um carro de polícia que imaginei ser da perícia. Nem sei se nossa perícia tem viatura especial que a diferencie. Perto da casa, uma pequena multidão. Enquanto passávamos observei uma das rodas sendo empurrada por pelo menos dois homens para perto do reboque.

O corpo continuava lá, parecia que havia sido mexido. As pernas agora estavam completamente a mostra, exibindo as marcas da idade. Procurei nas duas pistas e não vi sequer sinal do rabecão. Pensei no desamparo dos cidadãos. Na família que tem que ficar ali, sofrendo, olhando o cenário de sua dor até ficar gravado na alma, sem poder fazer nada. Tem que esperar a perícia e o rabecão, é a lei.  Sei que quem é adepto da filosofia morreu acabou vai me dizer que segundo essa lógica não há desamparo na demora em atender e remover um morto. Mas eu vou continuar não concordando. Luto para viver uma vida digna, para mim e minha família, quero morrer com  a mesma dignidade. Ficar mais de quatro horas no chão, largado, exposto, esperando não me parece nada digno. Nem para mim, nem para os que amo.

A essa altura já estavam circulando notícias e comentários. Em uma de minhas paradas ouvi um grupo de rodoviários comentando que logo a empresa ia querer culpar algum funcionário, e que era um risco muito grande trabalhar nela já que trabalhavam com veículos sucateados em suas linhas.  Em outro ponto pessoas que tem o hábito de dirigir naquele trecho não entendem como a roda tomou a direção da calçada e não atravessou para a pista de sentido contrário. Suspeitam que o eixo já estivesse um pouco torto quando aparafusaram a roda. Sei que todo brasileiro é técnico de futebol e perito em mil e uma especialidades. Mas alguns desses comentários me deixaram curiosa. Fui checar a mídia online.

No primeiro momento eles nem sabiam ao certo em que bairro havia acontecido, chegaram a dizer que foi em Santa Cruz (o bairro e não a avenida). No início da noite  já informavam a linha do ônibus, 875 (Campo Grande-Cascadura), e o nome da vítima, Antônio Pinto da Silva Filho, de 55 anos. O site do R7 confirmava as suspeitas dos rodoviários: o responsável pelo aparafusamento seria indiciado. Já o G1 dizia que a perícia apontava como causa a falta de manutenção do veículo, e O Globo reitera essa afirmação buscando a opinião de um especialista em Engenharia de Transportes. O mesmo jornal informa que a Subsecretaria de Fiscalização de Transportes afirmou que o ônibus estava em situação regular, ou seja vistoriado e liberado para rodar.  Para ter uma breve idéia do que aconteceu, vejam a foto abaixo:

Jadson Marques / Agência Estado

Como disse antes, a vida é mesmo muito frágil. É como um item raro, de altíssimo valor. Afinal quem pode determinar o valor exato de uma vida? Eu não saberia dizer. Nem arriscaria. Mas parece que as pessoas dão cada vez menos valor à vida, especialmente a dos outros. Foi publicado que a família pretende lutar por uma indenização. Já de início eu me pergunto: contra quem essa luta? Contra a Viação Padre Miguel, novo nome usado pela Feital, sabe-se lá porque? Ou contra a prefeitura que sabe que essa empresa é quase um inimigo público e continua permitindo seu funcionamento?

Em 2008, a Feital circulou com 110 ônibus, todos em situação irregular. Como isso pode acontecer? Não há fiscalização? Se há fiscalização, mas ela é ineficiente, seja por incompetência, desmazelo ou corrupção, a culpa é da prefeitura, que não é capaz de gerenciar seus servidores. Se não há fiscalização a culpa também é da prefeitura, já que o transporte coletivo rodoviário urbano é um serviço público sob a sua  administração, e ela tem obrigação de fiscalizar as concessões que  concede e garantir a qualidade dos serviços que repassa.

Uma indenização talvez possa valorar simbolicamente uma vida, não tenho muita certeza. Mas acredito que seu propósito maior seja não silenciar perante o absurdo. Para quem o único valor é o lucro, a única punição deve mesmo ser o prejuízo. Não acreditamos mais que pessoas assim, criminosos  que se denominam empresários, políticos ou servidores, serão penalizadas como devem. Então vamos aonde guardam suas almas. Suas contas bancárias. O prejuízo não lhes trará a redenção, mas talvez faça entender que sua ambição não pode por em risco a vida de inocentes.

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