A trombeta do capiroto


Hoje eu havia me preparado para acordar bem tarde. Fui dormir de madrugada, mas antes deixei tudo bem adiantado. Apesar de bastante cansada eu sabia que poderia me dar uma folga. A primeira em semanas. Eu estava tão determinada a fazer as pazes com Morfeu,que até o pó de café deixei no filtro. Quem acordasse primeiro prepararia com perfeição.E nem precisava me oferecer. Planos perfeitos… se não fosse a maldita “vuvuzela”.

Alguns bons vizinhos, pais amorosos que são, deram a seus pimpolhos essa cornetinha. Que fofo! Todos sabemos que crianças pequenas são fonte inesgotável de energia e nunca dormem até  tarde. Então, antes das nove eu fui premiada com um tremendo susto. Parecia que o barulho estrondoso era dentro da minha casa. Não deu para evitar o xingamento, desculpem.

Fui olhar pela janela para saber de onde vinha. Nem era na rua. O som estava passando de um quintal para o outro, mas juro, parecia dentro da minha casa.A criança em questão é bem pequena, não tem ainda noção de que sua alegria pode ser a tortura de outro. Eu podia imaginar o que acontecia. Pai e filho acordaram cedo e resolveram comprar pão. Hoje é dia de jogo, então vamos acordar com a camisa da seleção, passar o dia uniformizado de torcida. Ora,a lógica infantil é simples: se já estava vestido a caráter,então porque não soprar sua doce “vuvuzela”? O jogo é só de tarde, mas quem se importa. Ele nem entende a distribuição das  horas ainda.

Com a cabeça começando a doer,desisti de apertar o travesseiro contra o ouvido e fui preparar o café. Meu consolo é que ele acabou acordando todas as pessoas na própria casa e logo a mãe estava aos berros mandando o pai fazer aquilo parar. Agradeci mentalmente. Mas o bom senso durou pouco. Talvez o tempo de dar café da manhã a uma criança ansiosa. Ele queria a corneta do mal, a mãe queria sossego e papai queria exibir o filho torcedor.

Foram para calçada. Uniforme, pipa e “vuvuzela”. Em menos de uma hora vários papais saíram com seus pequenos torcedores. Quem não tinha “vuvuzela” portava uma buzina a gás que mais parece um spray de surdez. Uma sinfonia de cornetas e buzinas enlouquecedoras.Quando o algodão parou de fazer efeito, cheguei a pensar nos benefícios da surdez. Porque o som não é somente alto, é muito irritante também.

A essa altura todos já estavam acordados aqui em casa, esbravejando, pensando em retaliações. Mandei meu filho comprar o jornal. Na rua várias caras amassadas e sorrisos amarelos. Alguns vizinhos pareciam zumbis, doidos para xingar um, mas sem graça quando viam que eram crianças. Um olhar de acusação severamente lançado aos pais, e imediamente ignorado por eles. Como a falta de juízo parece ser contagiante, logo adolescentes e outros adultos se uniram as crianças, usando as pobrezinhas de escudo para extravasar a própria falta de limites. Coloquei uma música alta e fui cuidar da vida.Nada de descanso para mim hoje.

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