Mentiras e solidão – parte II


Já faz um tempinho que eu escrevi aqui sobre como as mentiras podem levar o ser humano a ficar cada vez mais solitário. Continuei pensando nesse assunto e percebi que nossa época criou novos formatos de mentiras e mentirosos. Pessoas mentem por solidão. Como? Com pequenas inverdades ou grandes fantasias. Para ser aceita, se destacar ou apenas dar sentido a vida. Eu não sei ao certo. Mas isso acontece muito. Acho que já mencionei que sou uma pessoa muito observadora e uma boa ouvinte. Talvez por perceber que eu ouço com atenção, as pessoas costumam puxar conversa. Desde um bom e velho amigo até um estranho em uma fila. Eu não me incomodo, até gosto. Já conheci boas pessoas assim, em uma boa conversa. Mas já ouvi muita fantasia também. Digo fantasia porque algumas histórias extrapolam os limites da mentira. São verdadeiros “causos” urbanos. Quase impossível conter o sorriso incrédulo em meio a apaixonada narrativa.

Esses dias fui encontrar alguns amigos. Logo apareceram conhecidos, e  os conhecidos dos conhecidos, e foram se juntando ao que antes era um pequeno e reservado grupo. Não nos tornamos uma multidão, mas já era um número suficiente de pessoas para haver as conversas paralelas. Antes do fim da noite eu já havia constatado uns seis mentirosos sociais, sendo dois deles na categoria “educação/desconforto”, um na categoria “status/poder” e os outros três na categoria livre mesmo. Para premiar a noite tínhamos entre nós também um incrível e carismático mentiroso compulsivo.
Antes que alguém se pergunte de onde tirei isso, preciso esclarecer que essas qualificações não possuem qualquer embasamento teórico. São somente minha tentativa de entender comportamentos que percebo estarem se propagando em nossa sociedade. Não fico estudando as pessoas, mas não posso evitar de perceber certos hábitos. Vou tentar explicar melhor. O que eu chamo de mentiroso social é aquele indivíduo que não se percebe como mentiroso, nem aceita que suas inverdades podem estar enganando alguém. Ele pensa nisso como um mecanismo social. Ele não quer encobrir um erro ou algo grave. O que ele deseja mesmo é se socializar, ser aceito, ser simpático e admirado. E pelo maior número de pessoas possível. Mentem para agradar e para não desagradar. Alguns acham que isso é somente uma gentileza. Estariam querendo fastar a sombra fria da solidão?

Conheço pessoas que representam bem isso. Se destacam no ambiente de trabalho, são bastante populares e conhecidas onde frequentam, mas não conseguem evitar dizer aos outros coisas como: “Já providenciei” e “Estou a par de tudo” quando esqueceu completamente o assunto; “vamos marcar sim” e “tá combinado, pode contar comigo” para convites que não pretende nem mesmo anotar; “pode aguardar” para ligações que não vai retornar; e o que eu mais abomino, “me aguarda que eu já estou chegando,estou no caminho, daqui a pouco estou ai”, falando de um celular muitas das vezes a quilometros de distância.

Eu tenho um amigo que faz isso. Já ouvi ele dizer essa pérola em casa, sentado, tomando um café. Quando pedi a ele que nunca mentisse assim para mim, recebi o olhar horrorizado de quem é insultado, agredido por quem menos espera. Como assim? Demorei para fazer ele entender que além de ser inverdade, não era tão inofensiva. Afinal a pessoa que ficava esperando poderia ter feito inúmeras outras coisas e voltado para o local combinado, se ele simplesmente mencionasse que estava atrasado. O máximo que consegui foi a promessa de evitar esse comportamento comigo. Até agora ele está conseguindo. Mas ainda assisto ligações que condenam pobres pessoas a esperar mais de hora. E quando percebe meu olhar de repreensão, ele simplesmente sorri, olha para o lado e continua a conversa.Pode parecer simplista demais, mas para mim é simples assim: o que não é verdade, está longe de ser, e mesmo sem intenção explícita acaba enganando o outro, é mentira.

Acho que deu para entender o que é o mentiroso social. A categoria livre inclui tudo o que já mencionei. Podemos acrescentar também aquelas promessas de falar com o chefe para garantir um emprego para alguém, conseguir uma vaga dificílima em uma escola ou hospital. Coisas que eu acredito ele até gostaria de poder fazer. A categoria educação/desconforto é a mais inocente e sofrida. São aquelas pessoas que não sabem bem o que dizer quando se sentem constrangidas ou sob pressão. Acabam confirmando coisas que não viram, aceitando publicamente compromissos insistentes do amigo bêbado,e outros embaraços desse tipo. Parecem sempre não querer desagradar e suas tentativas de evitar confrontos algumas vezes se transformam em episódios ainda mais embaraçosos. Na categoria status/poder vejo pessoas um pouco mais conscientes do que fazem. Aproveitam todos os momentos para contar como são extremamente cobiçados pelo sexo oposto, como são mais espertos, para exaltar sua superioridade em todos os aspectos. Querem sempre se destacar na conversa, e quanto maior o grupo de ouvintes melhor. Seu foco é a auto-afirmação e busca de prestígio. O excesso acaba despertando suspeitas, mas isso pode demorar. O que eu vejo, lá no fundo, é uma pessoa solitária, querendo a atenção e a admiração de todos ou de qualquer um.

Eu disse que também havia um mentiroso compulsivo. Se minha hipótese de que as pessoas mentem para fugir da solidão estiver correta, o compulsivo é o que maior solidão sente. Suas mentiras não são deslizes, são disfunções. Eu já ouvi histórias dignas da corte do Barão de Munchausen. E enquanto ouvia observava atentamente o narrador, tentando saber se ele esperava realmente que alguém acreditasse. Acontece que ele espera e fica muito ofendido quando posto em dúvida. Uma vez, ainda adolescente, ameacei rir quando ouvi alguém contar sobre como havia encolhido até ter aproximadamente meio metro (ou menos, não dá para saber ao certo porque ela mostrava o tamanho com as mãos) e depois “desencolhido”. O olhar de reprovação que recebi me calou para sempre. Como eu podia duvidar dos mais velhos? Naquela época esse era um argumento que, se não legitimava o dito, ao menos inibia. O que mais me espanta é que atualmente percebo cada vez mais pessoas jovens desenvolvendo essa compulsão.

Descobri que não vale a pena questionar ou confrontar um mentiroso compulsivo. Primeiro porque nada vai fazer ele admitir a verdade. Ele só altera sua história se for para acrescentar algum elemento ainda mais fantástico. Segundo, porque percebi que no fundo ele acaba não fazendo mal a ninguém, afinal seus “causos” são mais uma distração do que uma enganação. Impossíveis de acreditar mas bem interessantes. Talvez estejam tentando preencher algum vazio interior inventando sua realidade cheia de aventuras. Alguns são extremamente imaginativos e carismáticos. E inesquecíveis também. Depois de um tempo eu percebi que estava recontando alguns dos muitos “causos” que ouvi e decidi então escrever. Criei personagens para recontar as histórias e preservei a essência dos relatos em contos. Se eu conseguir terminar de escrever, organizar e formatar, eu publico aqui.

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2 Respostas

  1. Mana!!!!! Prometo a vcque, se um dia vc vier aqui em casa, eu te apresento um compulsivo desses… mas venha preparada pra escrever um livro, ele deixa o Barão de Münchausen no chinelo…kkkkkkkk

    E ele é dono de cartório, imagina o q acontece e não acontece, e já aconteceu e não aconteceu nessa cidade ao longo de toda a sua existência…hehehe 😉

    Bjinsss mana, aparece! 🙂

    • É com certeza vou ter muito material para escrever hehehe. O que mais me impressiona é como isso está ficando comum entre pessoas jovens, bem jovens. Ao invés de construir e viver a vida, eles inventam uma, cheia de aventuras bizarras. Eu também estou com muitas saudades. Amanhã vou tentar dar uma paradinha e te conto tudo por mail.

      Bjs mil mana querida. E, de repente, quando menos esperar, eu chego ai, hehehe

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