O medo é um inimigo cruel


Eu falei sobre enfrentamentos pessoais quando escrevi “A violência urbana como espetáculo midiático”. Mas é uma explicação um tanto vaga. Eu me referia ao temor constante que a convivência com a violência causa. Mesmo que essa conviência seja somente através do acompanhamento das notícias. Fui percebendo que cada vez mais pessoas apresentam, em maior ou menor grau, a síndrome de pânico. A princípio eram seqüelas de vítimas de violência e depois foi se espalhando, até que conheci pessoas que sentiam verdadeiro pavor do que poderia vir a acontecer. Temiam o imaginário.
Eu mesma, trabalhando em projetos sociais já vivenciei várias situações de temor e impotência. E sei que são angustiantes. Mas o que para mim foi mais traumático aconteceu durante um assalto a ônibus. Dois homens anunciaram o assalto perto de onde eu deveria descer e exigiram que o motorista não parasse o ônibus até que eles mandassem. O que estava com a arma parecia completamente transtornado e errático. Devia estar drogado. Eu pedi ao que recolhia os pertences que deixasse meus documentos. Foi o que bastou para o outro avançar em minha direção. Ele colocou o revólver na minha têmpora, rodou o tambor e gritou: “quer morrer agora?” A única reação que consegui ter foi baixar a cabeça, apoiar no braço e pedir aos Céus que meus filhos não vissem a cena que parecia inevitável. O outro conseguiu contê-lo, terminou de vasculhar as bolsas e mais adiante desceram, poucos metros depois de uma cabine policial.

Eu não conseguia articular uma palavra sequer, enquanto ouvia os outros passageiros comentando minha sorte, ou falta dela. Perdi meu dinheiro, meus documentos e o ponto em que deveria descer. Estava longe demais para ir para casa a pé, e sem um centavo para pegar outra condução. Não conseguia pensar direito. O motorista percebendo meu estado sugeriu que eu seguisse até o ponto final para poder retornar no mesmo ônibus sem pagar passagem. Eu nem sabia que estava chorando, apesar das lágrimas escorrerem sem parar. Estava em choque. A certeza da morte traz pensamentos e sensações muito estranhos.

Cheguei em casa, fui direto abraçar meus filhos, que eram pequenos, e só então senti que chorava. Soluçava em prantos, sem conseguir explicar direito o que tinha acontecido. O toque deles me trouxe de volta a realidade. Quando me acalmei fui acompanhada registrar a perda dos documentos. Não saí mais aquele final de semana. Pensei que descansando as coisas voltariam ao normal. Alguns dias depois notei que estava evitando locais, trajetos e até o simples fato de estar longe de casa. Na rua todos os movimentos pareciam estranhos e me causavam sobressaltos. Quando entendi que estava ficando em pânico, decidi que tinha que lutar contra o medo.

Consegui seguir em frente. Minha terapia foram meus filhos e meu trabalho. Ambos precisavam de mim e eu deles. E entendendo perfeitamente quem precisa de ajuda profissional. Não se trata de um drama ou manha. É uma sensação real, sufocante e quase física. Quase não. Em alguns momentos pode até mesmo alterar a pressão e os batimentos cardíacos. Quase uma façanha, combater um inimigo invisível que se esconde dentro de nós.

Quis mudar de cidade, de estado, até de país. Queria proteger meus filhos de experiências como essa. Mas percebi que seria uma fuga. Se eu não sucumbi também não iria fugir. Não podemos deixar que o medo tome as rédeas de nossas vidas, roube nossos sonhos e nos paralise. Não podemos permitir que nos afaste do outro, que mesmo diferente de nós, é nosso semelhante. Escrever sobre violência espetacularizada foi minha maneira de contribuir para desmistificar o imaginário aterrorizante evocado diariamente nas manchetes dos jornais. Confesso que ainda penso em me mudar, mas agora motivada pelo desejo de buscar novas oportunidades e melhor qualidade de vida. Ao invés de medo, muita coragem para enfrentar novos desafios.

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