O Matador


Assisti a reapresentação de “O Homem do Ano” no Canal Brasil. O filme é forte, bastante fiel ao livro e os atores interpretam os personagens de modo intenso e vivo. Um filme muito bom,  não me canso de ver.   Mas confesso que entre o filme e o livro, prefiro o livro. Quando comprei  “O Matador”, comecei a ler logo depois do jornal. Deveria apresentar uma resenha dele mas tinha um prazo tranqüilo. Não consegui parar de ler e quando percebi estava amanhecendo. Eu simplesmente não conseguia esperar para saber o que vinha depois. Adorei a experiência. Quem visitou a Flip no dia 05, quinta-feira, teve a oportunidade de assistir a própria Patrícia Melo falando sobre romances de investigação psicológica, gênero em que vem se expressando de maneira brilhante. Compartilho com vocês a resenha de O Matador.

O Matador

Patrícia Melo

Resenha de livro

O que passa na mente de um perigoso matador procurado pela polícia? Como um jovem tranqüilo de periferia se transforma em um assassino frio e contumaz? Em “O Matador”, publicado pela Companhia das Letras, em 1995, Patrícia Melo não pretende oferecer respostas definitivas a todas essas indagações, porém contempla o leitor com algumas pistas das motivações psicológicas das personagens, tipos humanos tão cotidianos que sequer os percebemos, e dos mecanismos que estruturam a violência sócio-cultural que se alastra pela sociedade contemporânea. Segundo a própria autora, seus livros e personagens dão vida às suas próprias angústias pessoais, abordando questões que a afligem como violência e morte.

O livro conta a trajetória de Máiquel, jovem da periferia da cidade grande, de 22 anos, vendedor de carros usados em uma concessionária, torcedor do São Paulo Futebol Clube, que a partir de uma simples brincadeira com os amigos, do pagamento de uma aposta, acaba se envolvendo em uma série de acontecimentos que o transformarão em um criminoso brutal. Da noite para o dia Máiquel conhece a popularidade e a possibilidade de conviver em um meio social que ele considera superior. Ele não acha que possa ascender socialmente, nem pretende isso, lhe basta ser recebido com certa cordialidade.

Mas o que vem fácil vai fácil. A sensação de impunidade acaba levando Máiquel a se tornar cada vez mais violento. No auge da sua escalada social começa a sua derrocada, e do mesmo modo como não sabia explicar como havia chegado tão longe, não entendia como havia se transformado, de uma hora para outra, de herói em monstro cruel. Será que ele realmente compreendia o que havia acontecido com a vida dele, as razões que o dirigiram naquela direção, ou era mero e ingênuo espectador da própria existência?

Patrícia Melo é roteirista, dramaturga e escritora. Essa paulista, nascida na cidade de Assis, em 1962, estreou em ficção em 1994, com o livro “Acqua Toffana”, publicado pela Companhia das Letras. Desde então, lançou mais três livros pela mesma editora, “O Matador”, em 95, “Elogio da Mentira”, em 98, e “Inferno”, em 2000. No teatro, escreveu “Duvidae”, encenada por Luciana Chauí e “Duas Mulheres e um Cadáver”, levada aos palcos por Fernanda Torres e Débora Bloch, além da adaptação de “Doenças da Morte” de Marguerite Duras. No cinema dividiu com o diretor Flavio Tambelli os créditos do roteiro do longa metragem “Bufo e Spallanzani”, baseado em original de Rubem Fonseca. Em uma afinada troca de gentilezas, é o próprio Rubem Fonseca quem se incube de adaptar “O Matador” para o cinema, dando origem ao longa “O Homem do Ano”. Patrícia é também a roteirista do longa “O Xangô de Baker Street”, filme de Miguel Faria Jr., baseado na obra de Jô Soares.

Em 1999, a Time Magazine inclui-a entre os cinqüenta “Latin American Leaders for the New Millenium”. Autora consagrada e premiada pela crítica internacional recebeu no ano 2000 o prêmio Jabuti de Ouro, por “Inferno”. “O Matador” recebeu os prêmios Deux Océans e Deutsch Krimi, além de ser indicado para o Prix Femina de romance estrangeiro, e já ter ganho oito versões estrangeiras.

Se alguns críticos divergem quanto a situar “O Matador” como um romance policial, já que o foco narrativo não se concentra em solucionar, ou mostrar os desdobramentos deste ou daquele caso apresentado no livro, e sim na maneira como as personagens sentem, entendem e se relacionam com estes fatos. Há, contudo, certa unanimidade em entendê-lo como um romance psicológico e de formação.

Neste livro, ainda mais do que em outros, percebe-se a influência que Rubem Fonseca exerce no trabalho de Patrícia Melo. Aliás, “O Matador” traz uma menção a um conto de Rubem chamado “O Cobrador”. Além de uma séria de elementos comuns, de recortes da sociedade semelhantes, há ainda a presença em ambos do amargo dr. Carvalho, com as mesmas características em um e outro trabalho.

O cenário de “O Matador” é o cotidiano urbano das grandes cidades, pano de fundo para tratar de questões contemporâneas que vão além da violência pura e simples, passando pelas desigualdades sociais e pelos dilemas da vida moderna.

Máiquel é mais do que uma personagem isolada em uma índole, ou determinação que o leve a brutalidade. Ele representa uma nova classe que emerge no seio desgastado da sociedade, de jovens cheios de desejos, com algumas referências  e ambições, porém desorientados e despreparados para lutar por seus ideais, ou até mesmo para ter ideais. A autora oferece uma visão da falta de perspectivas da juventude moderna que anseia em ascender socialmente, para sentir-se aceito e realizado, e poder usufruir do bem-estar dos “bacanas”, sem refletir de que forma isso se dá. Máiquel fica cansado só de pensar no emprego e no trabalho, porque nestes não vê perspectivas de possuir as coisas que deseja, mas quando percebe a “ascensão”, a ”fama”, a aceitação que seu infortúnio transformado em carreira está lhe proporcionando acaba por aceitar isso como uma forma de trabalho qualquer, chegando a banalizar seu próprio “erro” no episódio do menino no skate, com a justificativa de que todos os profissionais um dia cometem erros.

A trajetória de Máiquel é marcada por uma simbologia bem peculiar, que evidencia os conflitos e as diferenças de classes. Dois elementos vão possuir singular importância no imaginário da personagem: os dentes e os sapatos. Máiquel acaba matando Ezequiel, e dando o fatídico passo em direção a uma vida de violência banalizada, porque seus dentes doíam, porque tinha vergonha de seus dentes podres, porque tinha vergonha de ser pobre e aceita a proposta do dr. Carvalho, que oferece tratamento dentário gratuito em troca do “serviço”.

Já os sapatos são para Máiquel a representação mais contundente da vergonha que sente da pobreza. Para ele, toda a diferença social era evidenciada pelos sapatos que cada um usava, que tinham o poder de desnudar o status de seu dono da maneira mais embaraçosa e constrangedora possível. Isso é tão forte para ele, que quando fica rico, sua primeira providência é imitar o estilo de vida dos “bacanas”, a decoração de suas casas, seus sapatos italianos, para poder sentir que já é um deles, que é aceito por eles.

A questão da violência urbana vem alinhavada a um reconhecimento das diferenças e desigualdades sociais. Para evidenciar isso, a autora se utiliza de uma linguagem direta, coloquial e em muitos momentos extremamente violenta, situando a narrativa socialmente.

A ousadia de Patrícia vai além, e rompe com alguns parâmetros de contextualização da narrativa. A linha que separa o real do imaginário se torna tão tênue, que essas dimensões chegam a se fundir, e se confundir. Essa irreverência poderia ter sido um grande fiasco, entretanto a autora faz essa quebra com tamanha sensibilidade e agilidade que acaba por se tornar um dos aspectos mais interessantes do livro, que prendem irremediavelmente a atenção. O leitor pode a todo momento ser surpreendido por um pensamento qualquer da personagem que não foi exatamente explicitado, pensa-se que ele vai falar algo (ou mesmo que está falando) e depois se percebe que é só o pensamento, e que muitas vezes suas ações não estão em conformidade com seus pensamentos.

O livro possui ainda outra particularidade que irá agir diretamente sobre as emoções do leitor. É o próprio Máiquel quem conta sua história. A narração em primeira pessoa promove uma maior aproximação e identificação do leitor com a personagem, que pode apresentar suas facetas mais íntimas, seu ponto de vista, seus questionamentos, dúvidas e impasses, compartilhando sua crise existencial com um leitor convidado a deixar sua confortável posição de mero observador para se envolver emocionalmente, quase como um cúmplice ou confidente.

Realmente a autora acerta ao afirmar que Máiquel pode estar ao seu lado neste instante, porque existem aqueles que ainda não cometeram um erro que os denunciasse e estão, ou poderiam estar, por aí até hoje, alguns inclusive na carreira política almejada por Máiquel. E existem ainda tantos outros que sequer sabem no que podem se transformar, enquanto se contorcem entre uma dor de dente e o constrangimento de um sapato velho.

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