Jornalismo isento? Onde?


Ontem, exausta, tive o desprazer de decidir assistir ao Jornal da Globo. Eu já tinha ouvido comentários sobre a série de entrevistas com os candidatos a presidência. Não eram bons, mas eu me abstenho.  Não vi. Na edição de ontem, o Willian Waack promoveu um espetáculo sensacionalista merecedor de um questionamento ético. Isso para resumir. A emissora, e seus funcionários bem pagos, não apóiam a candidata do governo? Direito que lhes assiste. Mas usar um telejornal para fazer campanha,distorcendo notícias e criando avaliações fora de contexto é patético. Será que não lhes passa pela cabeça que nos dias de hoje consumimos informações de várias fontes, e cada dia mais as pessoas podem comparar e avaliar o que lhes dizem as poderosas emissoras de TV? Seu controle unilateral e supremacia chegam ao fim. E viva a internet e todos os veículos independentes que ela possibilitou.

Quase todas as notícias apresentadas eu já tinha visto e lido durante o dia. Eram pertinentes estar naquela edição. O dispensável eram as caretas do Waack e as chamadas irônicas. Durante três blocos ele anunciou, quase como se fosse piada, que a Aeronautica tinha publicado uma portaria em Diário Oficial relacionada a “discos voadores”. Para quem só ouve o âncora, parece mesmo um despropósito total, um devaneio. Para enfatizar, a matéria começa com uma cena do filme Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Só que a mencionada portaria é uma metodologia somente. Ela regulamenta procedimentos de registro e arquivamento de eventuais avistamentos de “Objetos Voadores Não Identificados” no espaço aéreo brasileiro. E objetos voadores podem ser balões, aviões desconhecidos (que podem incluir aeronaves clandestinas de traficantes), e até, se um dia for o caso, os tais discos voadores do Waack. Quando a notícia finalmente foi apresentada, nem era tão fora de contexto assim. Mencionava inclusive que o Brasil investiga esse tipo de ocorrência desde a década de 40, e os registros estão sob a guarda do Arquivo Nacional. Ou seja, a Aeronautica não estava “inventando moda”, não faltava-lhe o que fazer. Estava somente ajustando procedimentos tentando tornar mais eficiente seu papel investigativo.

O presidente teve que assinar contrariado as sanções contra o Irã. Essa contrariedade já era previsível, uma vez que o presidente tentava evitar mais esse impasse internacional. E já era manchete em todos os jornais. Como piorar a situação? Com o Jabour, claro, apocalipticamente anunciando nossa condição de “vira-latas” “terceiro mundistas” que desafiaram o ocidente e não poderão ser perdoados por isso. “O mal já está feito!”. O Irá é o bárbaro imundo da vez, nas palavras de Jabour. Ora, O Irã tem mesmo leis que podem ser consideradas bárbaras, e muitas delas são difíceis de entender. Especialmente para mim que nasci e fui criada em outra cultura e nunca pude conhecer a cultura iraniana mais a fundo. Talvez fosse o momento de incentivar uma releitura de seus métodos. Mas o que dizer do Tio Sam, o Big Brother a quem Jabour parece temer ter ofendido? São menos bárbaros enquanto tentam dominar os outros, promovem guerras intermináveis, mantém campos de concentração e tortura, destroem tudo por onde passam? Tenho amigos que nunca serão as mesmas pessoas novamente, e a barbárie que os vitimou nunca foi problema para os EUA, enquanto financiavam a ditadura nesse país.

O ENEM virou o assunto da hora. Questionam sua eficiência, sua credibilidade, e agora alardeiam a possibilidade de atraso na impressão das provas. A Justiça paralisou a licitação por conta de uma ação movida pela empresa Plural Editora e Gráfica LTDA, a mesma onde no ano passado aconteceu o extravio das provas. Acontece que para evitar uma repetição desse atropelo, o MEC criou especificações de segurança e sigilo de impressão, exigidos das empresas concorrentes na licitação. A Plural venceria o pregão por menor preço, mas não atendia aos requisitos de segurança, por isso foi desclassificada. Insatisfeita com isso, a empresa recorreu a Justiça e paralisou o processo de licitação. Em resumo, o ENEM não agrada. Suas falhas são ruis, suas tentativas de acerto são ruins. Mas não agrada a quem? Aos estudantes que podem em uma única prova se candidatar as vagas oferecidas em instituições federais e as bolsas PROUNI nas particulares? Aos que vão se desgastar menos e gastar menos também (os estudantes regulares do ensino público não pagam, quem declara carência também não. E para quem paga, o valor não chega a R$ 50,00)? Ou aos que deixam de lucrar com as altímissas taxas de inscrição em vestibulares? Talvez a uma elite pobre de espírito que se sinta ameaçada ao perceber que seus filhos terão as mesmas oportunidades de qualquer outro brasileiro. Uma minoria, com certeza.

E o mais interessante dessa edição: um painel demonstrando uma diferença do salário inicial do trabalhador brasileiro que estaria menor do que o que era pago no final da década de 90. Eram vários índices percentuais comentados por um especialista que acompanhava o que Waack dizia  em anotações visíveis para o espectador.  Mas qual o contexto? Que conjunto de fatos e ações influenciavam os salários no período escolhido e quais influenciam hoje? Na matéria fica evidente que a necessidade de maior qualificação movimenta o mercado. E essa informação fica ali, lançada e largada. Quem tiver ouvido tudo, pode chegar a conclusão de que é preciso se qualificar para ganhar melhor. Então, viva o ENEM que abre a possibilidade para brasileiros de todas as origens buscarem essa qualificação tão necessária para uma vida melhor.

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