Um raro despertar


Tic Tac Tic Tac! Enquanto o pássaro cantava na janela, saudando novamente a chegada do dia, e o calor aconchegante do sol, ele preparava calmamente seu café da manhã. Sem muito luxo, sentou-se e apreciou seu desjejum. Logo iria para o trabalho. Arrumou-se com cuidado. Sua aparência era a melhor possível: tranquilo, saudável e … feliz! Saiu do apartamento no momento em que a senhoria, que costumava estar sempre irritadiça, vinha chegando. Ela estava diferente, parecia estar em paz consigo mesma. Engraçado! Nunca antes havia conseguido reparar como ela era uma senhora bonita, devia ter sido uma jovem bastante atraente. Porque será que ela vivia tão sozinha? Parou para lhe dar bom dia e foi recebido com extrema simpatia. Falaram um pouco sobre assuntos do prédio e se despediram.

Já no trabalho ele começou a perceber o quanto aquele dia estava sendo especial, e de certo modo estranho. Não havia sido retido por engarrafamentos, as pessoas andavam nas ruas sem atropelos, não havia visto nenhuma briga ou sido abordado por nenhum pedinte, e agora assistia, meio tonto, seu chefe sorridente falar sobre as metas a serem alcançadas pelo seu setor, sem gritos, insultos ou ameaças, mas como um verdadeiro líder, elogiando os esforços já feitos, sugerindo novas abordagens e se oferecendo para auxiliar estrategicamente os que estavam com dificuldades. Chegou a pensar que tudo aquilo era algum tipo de brincadeira de muito mau gosto e que logo ele ia sair esbravejando absurdos como era de hábito. Ou então, que de trás da porta ia aparecer um diretor ou alguém muito importante para elogiar-lhe os métodos, e que em seguida tudo voltaria ao normal. Enganou-se. Apesar da desconfiança, decidiu refletir sobre o assunto mais tarde , o dia estava apenas começando.

Chegando no seu setor teve a certeza de que havia esquecido algo, ou alguma data muito importante, pois esta seria a única explicação para todos aqueles rostos sorridentes, se cumprimentando, trocando elogios e palavras de incentivo, enquanto se preparavam para atender ao público. Não queria perguntar o que estava acontecendo e ser motivo de chacota pelo esquecimento. Novamente decidiu deixar para mais tarde . Alguém com certeza acabaria fazendo algum comentário que lhe permitiria lembrar que data era aquela.

Ufa, que dia movimentado! Um enorme entra e sai de clientes, cheios de dúvidas e necessidades diferentes. Impressionante, como com todo esse alvoroço, a calma e o bom humor reinaram soberanos onde usualmente o que se via era o caos. Calmamente os clientes aguardaram para serem atendidos e tentarem solucionar seus problemas. Calmamente todos no seu setor, inclusive ele próprio, ouviram cada cliente, explicaram o que poderia ser feito e tentaram resolver as questões que lhes eram apresentadas. Todos com um sorriso nos lábios, não como uma máscara funcional fria e calculada, mas um sorriso verdadeiro, aconchegante e tranquilizador.

Ao final do dia foi despedir-se dos colegas para ir para casa. Embora não tivesse entendido nada, tinha sido um dia maravilhoso, e ele faria de tudo para que continuasse assim. Cumprimentou a todos, ouviu com atenção as dúvidas da colega que estava indo estudar, deu o “até amanhã” habitual e já ia saindo, quando ouviu alguém lhe chamar: “Amigo!” Um arrepio percorreu sua espinha, chegou a pensar que não era com ele. Amigo? Achava ue não tinha amigos, ainda menos no trabalho. Virou-se com cuidado e viu o veterano do setor, que sorrindo lhe perguntou: “Não vai ver quanto vai receber de salário?” Ah, então era isso! Acabava o mistério, era véspera de pagamento. Esse era o motivo de tamanho bom humor coletivo! Correu para ver o quanto havia sido descontado esse mês. Sabia que o salário era pouco, mas se os descontos fossem pequenos, poderia pagar algumas contas em atraso do apartamento e manter a simpatia da senhoria.

Quase caiu para trás, alguém havia cometido um erro enorme, gravíssimo, não se brinca assim com um trabalhador. Aquele não era seu salário, talvez o de algum superior com o nome parecido com o seu. Se ganhasse aquilo tudo por mês não ficaria devendo tanto a todo mundo, e talvez não ficasse tanto de mau humor tentando equilibrar as contas, decidindo se comprava comida ou pagava a luz. Lembrou-se da ex-namorada, mulher da sua vida, que não havia conseguido suportar conviver com suas mudanças de humor por causa dos problemas profissionais e financeiros. Ficou um pouco melancólico e virou-se para o veterano para comentar o erro. Impossível! Não havia erro algum, o outro receberia ainda mais, como prêmio pelos anos de dedicação. Bem, alguma coisa estava bastante errada. Agora já era hora de se beliscar! Não deu tempo. O celular tocou, e do outro lado da linha a mulher da sua vida lembrava que deveria buscá-la para conversarem sobre o futuro. Desligou. Precisava mesmo se beliscar, e de preferência com toda força que pudesse. Precisava entender o que estava acontecendo e não podia mais deixar para depois. Tinha que ser agora. Mas o celular voltou a tocar e dessa vez não parava de jeito nenhum.

TRIIIIIIIIIIM! TRIIIIIIIIIIM! A porcaria do despertador não parava de tocar. Abriu os olhos devagar, tentando entender onde estava. Pela janela a nuvem de monóxido de carbono não deixa ver o sol. Um sonho, era tudo um sonho. Que sacanagem! Os sons histéricos das buzinas no engarrafamento ali em baixo era de enlouquecer, e não ia parar tão cedo, porque apesar de todas as “barbeiragens” que ajudaram a dar o nó no trânsito, todos os motoristas estavam certos, ao menos na opinião deles. E todos tinham pressa, muita pressa. Olhou de novo o relógio. Mas que droga! Se não corresse ia chegar atrasado de novo e ouvir aquela bronca na frente de todo mundo. Bebeu o café aguado (para economizar o pó), arrumou-se correndo e saiu batendo a porta com força. Enquanto lutava para fechar a porta, as chaves e a maçaneta fazendo de tudo para atrapalhar, lembrou-se da perfeição do sonho que teve, da sensação de paz que pode experimentar. Neste instante a senhoria aponta no corredor, com seu cotidiano ar de “maus bofes”, franze a testa e avança em sua direção. Sua reação imediata é fechar a cara também e sair apressado de perto dela. Porém lembra do sonho novamente e, num impulso irresistível, levanta os olhos para ela, abre um sorriso e lhe diz “bom dia”. Ela parece chocada, como se tivesse levado um baita susto, no entanto, vagarosamente, desfranze o cenho, sorri de volta e retribui o cumprimento. Falam sobre as coisas do prédio, ele se oferece para ajudá-la no fim de semana e se despedem. Perfeito! Na condução, mais uma vez, lembra do que sonhou e do modo como a senhoria agiu quando falou com ela. Compreendeu que não podia fazer com que tudo que sonhou virasse realidade, porque não dependia só dele, mas que poderia, e deveria, fazer sua parte para torná-lo real. Inexplicavelmente, chegou ao trabalho sorridente, sabia que ter um bom dia dependia dele mesmo e de mais ninguém. Cumprimentou a todos, em especial ao veterano, abandonado em um canto da repartição. Estava em paz! Uma paz que vinha de dentro e, portanto, nada de fora poderia abalar. Sentia-se humano, capaz de conviver com outros seres humanos, de compreende-los e de lutar para realizar todos os seus sonhos e projetos. Aquela noite ligaria para mulher da sua vida e sairiam para conversar

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