Seleção por eliminação – Cotas


Não voto em quem defende sistema de cotas como solução única para promover a igualdade social. Sistema de cotas pode até fazer parte do processo amplo de estruturação de uma sociedade igualitária, mas como um instrumento pontual, uma etapa enquanto se revitalizam setores sucateados, como vem sendo a educação. Mas o que deveria ser uma parte do meio tem se transformado em fim no garimpo eleitoral. Pode até parecer que não, mas sistema de cotas só legitima a exclusão e a segregação. Quando aceitamos que a sociedade seja “fatiada” para negociação de alguns poucos privilégios, nos enfraquecemos na cobrança daquilo que deveria ser priorizado como direito de todos.
Eu estudei em escolas públicas. Minha vizinha e companheira de infância frequentou a mesma escola municipal que eu. No ensino médio, que em nossa época era o Segundo Grau, fomos em busca de ensino técnico. Não podíamos fazer cursos preparatórios, mas a escola municipal nos deu a base necessária para seguir em frente. Pedimos livros emprestados, nos revezamos para ler, e fizemos os concursos. Passamos para escolas federais. Tínhamos as dificuldades comuns de quem não nasce rico, tem irmãos, e não recebe qualquer auxílio público. Não tínhamos passe de estudante, as escolas não davam os livros, e cada família que desse seu jeito de manter seu filho na escola. Ter um ensino gratuito de qualidade já era um privilégio. O resto era por nossa conta.
Aproveitamos ao máximo essas oportunidades. Eu parda, ela negra, ambas mulheres e de origem pobre. Ter recebido um ensino público de qualidade, desde o início, foi fundamental para nossas vidas. Foi o que nos proporcionou igualdade de condições, seja na disputa pelo acesso ao ensino superior, seja no enfrentamento competitivo do mercado de trabalho.
Ensino público de qualidade para todos é mais do que reservar cotas no ensino superior. Ele deve começar junto com as primeiras palavras lidas e escritas, para que seja realmente um fator de transformação social. Não basta construir escolas, equipar com alta tecnologia ou iniciativas de informatização performática. É preciso compromisso e planejamento,  boa formação e valorização dos profissionais de ensino, salários e condições de trabalho condizentes com a tarefa importante que desempenham, envolvimento da sociedade.
E minha lista de descarte cresce.

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2 Respostas

  1. Cara Mônica,

    Concordo com você, pois movimentos de luta por direitos com corte de gênero(mulheres e gays) e etnia(cor) trazem em si uma contradição: Seu objeto político de luta é o que lhe trará extinção, na medida que os direitos forem alcançados.

    Mas hoje, nesse país, essa luta é muito atual. O acesso a bens e direitos, bem como remuneração e outros insumos de ascenção social, estão restritos por um corte de classe, que traz em si outro corte mais profundo: o corte de cor:

    1. a maioria dos mortos por homicídos ainda são negros.

    2. negros a maioria das vagas das cadeias.

    3. os cargos de chefia são destinados a brancos e homens.

    4. as universidades contam (ou contavam)com poucos negros nas suas salas.

    Então temos um ponto de inflexão so sistema: como incluir quem já perdeu aquela chance que lhe foi negada por nascimento e origem de classe e cor?

    Melhorar o ensino público resolve para as gerações vindouras, mas e os jovens pretos de hoje?

    Como vão incluir suas famílias nos patamares mais altos da sociedade?

    As cotas são o reconhecimento de que no sistema brasileiro, nós apresentamos a seguinte situação:

    Dê uma árvore de mesmo diâmetro para um negro e um branco cortarem.

    Dê um canivete ao negro e uma serra elétrica ao branco.

    As cotas são para diminuir essa disparidade, pois ambos são capazes de “cortar” a árvore.

    Um abraço.

    • Olá Douglas,
      Não ignoro nem discordo de nenhum de seus argumentos. O meu mal-estar não está na implantação de cotas como parte de um processo, eu reconheço a necessidade emergencial de ter mecanismos para solucionar o momento presente. E percebo que alguns políticos tem isso em mente. Defendem melhoria no ensino e cotas como mecanismo inclusivo. O que me incomoda é que as cotas sejam transformadas em fim. Especialmente em fim eleitoreiro. “Vamos defender cotas, elas são a solução, e pronto, está tudo resolvido!”. Não está. Esse simplismo só atende a quem tenta “garimpar” votos usando as necessidades reais da população. Se seguirmos assim vamos regulamentar as desigualdades ao invés de resolvê-las. Eu entendo a necessidade das cotas, mas as vejo como um curativo em nossa grave ferida social. Ele é necessário, mas é preciso também empenho em buscar a cura.

      Um abraço e nos vemos na reunião segunda. Até lá!

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