O vazio da saudade, algum dia passa?


Ontem não consegui escrever. Recolhi-me em silêncio saudoso e melancólico. Ontem completou um ano que minha avó partiu, e de repente o sentimento de perda e ausência se fizeram tão presentes que minhas palavras secaram. Tornaram-se lágrimas. Tentei somente pensar nas boas lembranças e nem isso foi conforto. Minha avó não era uma guerreira, ainda que tenha sido uma heroína cuidando de filhos e netos. Nascida em João Pessoa veio para o Rio ainda jovem onde conheceu um cearense inteligente e boêmio com quem teve três filhos, a mais velha minha mãe. Ela não deixou grandes feitos para a história, mas com certeza deixou-nos um legado cultural e afetivo.

Eu pouco me recordo de minha avó paterna. De origem protuguesa ela não aprovava o casamento de meu pai com uma “mulata”. E como ela se foi quando eu era criança, nunca pude saber se a distância era somente um jeito de ser ou se era rejeição a nossa origem miscigenada. Já Dona Helena era a feliz avó de netos multicores, achando muita graça de nossa pluralidade. Não porque era correto mas porque lhe era natural. Esses termos nem faziam parte de seu vocabulário. Na Paraíba de sua meninice ela não frequentava a escola. Filhas de caixeiro-viajante, as moças ficavam cuidando da casa e aprendiam o que seus irmãos ensinavam. Sua caligrafia faria inveja a muitos letrados. Ainda guardo as cartas e cartões que me enviava. Gosto de olhar a letra e as palavras simples e sempre muito corretas.

Cozinhar foi algo que aprendi com ela. Quando eu tinha uns onze anos ela achou que era hora de aprender a bater um bolo. Até hoje, quando a nostalgia e o afeto transbordam, deixo as modernidades de lado, pego colher de pau e bacia, e bato um belo de um bolo cheio dos segredos e dicas que nos deixavam extasiados na infância. Era ela entrar na cozinha e lá íamos nós nos aboletar nos arredores,  gulosos a espera de vasilhas para lamber. Uma vez lhe perguntei porque ela fazia tantas coisas para o lanche da tarde: bolo, cuscuz, pão, e o que mais lhe desse na telha. Ela disse que era costume, na casa do pai eles faziam um lanche bem forte antes de ficar escuro e mais tarde só merendavam antes de dormir. Ela tinha verdadeiro horror de imaginar alguém próximo com fome. Mas nunca, nem uma vez, eu a ouvi reclamar da infância. Era grata a Deus pela família, pelos irmãos e pelos filhos, netos e bisnetos.

Crescemos e ela ainda cuidava de nós com os mesmos dengos e atenções. Toda vez que eu ia fazer uma prova importante lá estava ela com um leite morno para dormir bem, um café fresquinho de madrugada e uma maçã para eu comer no caminho. Não sei bem porque mas ela sempre acreditou que maçã ativa o pensamento e a mamória. Se adoecíamos eram chás, comidas, xaropes caseiros e garrafadas de todo tipo. Conhecimento que escolhi preservar. Lembro da última vez que a vi. O Alzheimer avançado a debilitava muito. Ela sempre nos via em nossos filhos. Não conseguia nos reconhecer como adultos.  Abraçadas no sofá, eu lhe fazia cafuné, uma expressão de carinho que aprendi com ela mesma. Minha  mais aconchegante recordação, deitar no sofá para receber seu cafuné, e me deixar embalar enquanto as vozes vão se distanciando. De repente, ela se afastou um pouco, olhou bem nos meus olhos e me chamou pelo nome. “Moniquinha”! Só ela me chamava assim. Senti um nó na garganta. Meu coração pesou. Dentro de mim se degladiavam sentimentos conflitantes, o desejo egoísta de tentar evitar a perda, de ter mais tempo e a aceitação de que o amor deve libertar, de que nada nem ninguém me tiraria todas essas lembranças que ela havia me dado.

Ano passado, na véspera do aniversário de minha filha, minha tia foi assistir ao jornal com ela. Ela estava com sono. Abençou minha tia como de costume e foi se deitar. Minha tia ajeitou algumas coisas na casa e foi se despedir. Ela já tinha partido, serena, dormindo o sono dos justos. Quando me ligaram eu não consegui falar mais nada. Estar preparado não afasta a dor nem o vazio. Ontem, eu tentei fugir do vazio trabalhando sem parar. Quando o corpo não aguentou mais, tomei o chá de stévia no leite morno, melhor calmante do mundo, e fui deitar. Por um instante, pensei sentir suas mãos em meus cabelos. Para os céticos, memória recorrente. Para mim a certeza de que de um lugar melhor ela ainda olha por nós!

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Uma resposta

  1. Nossa voltei no passado lendo esse poema, e quando terminei voltei pro presente a dor e forte, fui criada pelos meus doce avos e me deu uma saudade tremenda dos dois, a lembranca e maravilosa, como queria poder criar a minha filha passando todos esses exemplos, hoje a vida me e corrida,nao nos sobra o devido tempo pra viver, passar essa lembranca pra minha filha, fica aqui dentro so pra mim como se eu fosse egoista. Minha Mae tambem partiu e os unicos avos que minha filha tem mora em outro Pais, e quando se encontram nao tem o mesmo que tive quando cresci com os meus. Esses valores estam terminando e isso e muito triste, tenho saudades do meu tempo de menina.

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