Aborto: hipocrisias e manipulações


Sou contra o aborto. Uma postura ideológica minha, permeada pelos dogmas da minha fé. Sou uma feliz mãe de três filhos. Nunca fiz um aborto, nem incentivei ninguém a fazer. Muito pelo contrário.  Passei muitos momentos difíceis em minha maternidade, especialmente quando queria poder prover meus filhos de mais opções e não podia. Tenho orgulho de ter enfrentado esses desafios.  Se o aborto não fosse crime, ainda assim eu não o faria, a qualquer tempo. Tenho convicção das minhas escolhas e da minha fé. Se minha filha, ou uma namorada de meus filhos, ou mesmo uma conhecida me falarem em aborto, tentarei dissuadi-las. Argumentarei, apresentarei opções, oferecerei apoio. Essa sou eu, na esfera privada de minha existência. Digo essas coisas, tão particulares, para que entendam porque me sinto à vontade para afirmar que considero a polêmica do aborto levantada nessa campanha eleitoral uma das maiores hipocrisias político-religiosas-eleitoreiras dos últimos tempos.

Para começo de conversa é um absurdo pensar que a descriminalização do aborto irá incentivar as mulheres a sua prática. Quem, como eu, tiver firmeza em suas convicções simplesmente não o adotará como opção. E é nesse patamar que deveria ficar a intervenção religiosa, na transmissão de seus dogmas e ensinamentos a seus fiéis. Transfusão de sangue nunca foi crime, mas é um dogma importante para alguns segmentos religiosos e seus fiéis simplesmente não aceitam recebê-la. E são livres para recusar, porque o Estado lhes garante esse direito.

Um outro ponto muito importante a se pensar: porque achamos certo que o viciado em drogas não seja mais criminalizado e a mulher que praticou aborto deve ser tratada como criminosa? Porque é principalmente disso que se trata. Das centenas de milhares de mulheres que morrem todos os anos, vítimas deste tipo de procedimento feito na clandestinidade, e que não buscam socorro para não serem presas.  A comparação com os viciados parece grotesca? Vejamos então.  O dependente químico, ainda que vítima de sua dependência, muitas das vezes faz mal a ele, a sua família, a terceiros quando pratica delitos para sustentar seu vício ou sob efeito dele, e a sociedade quando sustenta o violento mercado das drogas. A mulher que aborta faz mal a si mesma e ao feto. Isso partindo do pressuposto que fecundação é vida, embora eu saiba que não há concordância científica nesse aspecto.  O que está em jogo aqui é a mesma cadeia de pensamento hipócrita: enquanto somente o pobre de periferia era preso, ele era o “viciado safado!”, merecedor de sua criminalização. Quando as elites não puderam mais esconder e proteger os vícios e delitos de seus filhos, iniciou-se uma campanha para a compreensão de sua condição de vítimas.  Se acaso as filhas das elites morressem ou corressem o risco de serem presas em seus abortos, tenho certeza de que essa discussão já não existiria.

Particularmente não conheço nenhuma religião que aceite ou incentive o aborto. Pode ser que exista, mas eu desconheço. Mas percebo que somente líderes católicos e evangélicos de alguns segmentos se embrenharam nessa cruzada, justamente em período de campanha eleitoral.  Parecem mais querer demonstrar e negociar poder, exibir  sua força de “reunir e conduzir rebanhos”, mostrar quantitativos de eleitores que poderiam influenciar. Sem se dar conta, atestam publicamente que não confiam em sua fé, nem em seus fiéis. Abandonam o covencimento ideológico da pregação, o apoio espiritual que deveriam oferecer para evitar os “desvios do rebanho”, para batalhar mecanismos de imposição e coerção social.  Desrespeitam seus fiéis tratando-os como numerários em negociação política. Se tantas mulheres morrem em decorrência de abortos, e outras tantas sobrevivem com seqüelas, das duas uma: ou temos muito mais pessoas sem religiosidade do que imaginamos ou as religiões estão falhando em oferecer ensinamentos e suporte às suas seguidoras. Seja como for, as religiões não devem tentar interferir com o governo, a menos que estejam dispostas a aceitar que o governo faça o mesmo. Quando eu vejo as Igrejas tentando impor seus dogmas ao Estado fico pensando no que fariam em situação contrária.  Com certeza esbravejariam e se debateriam em veementes protestos.

O aborto é uma questão de saúde pública e deve ser tratado com a devida seriedade e responsabilidade. Ele acontece apesar de todas as proibições. É papel do Estado olhar para o problema com a razão, não com a emoção. Descriminalizar pode permitir ao Estado oferecer assistência médica, social e psicológica a mulheres em desespero. É algo que merece ser pautado e discutido em busca de soluções reais. Lamentavelmente um problema dessa magnitude foi transformado em circo eleitoreiro, envolvendo políticos e religiosos em frenética, insana e promíscua campanha difamatória, onde vale tudo, até mesmo a aberta e pública negociação de fiéis. Essa é uma das razões porque defendo que Estado e fé não se misturam. Sou favorável a descriminalização do aborto e a uma definição de políticas públicas sóbrias sobre o assunto que incluam ações preventivas e participem dos programas de saúde da mulher, e espero que um governante tenha maturidade sócio-política para enfrentar assuntos polêmicos como esse. Continuarei sendo contrária a opção pelo aborto. Não há incoerência nisso.  A fé, e seus dogmas, são escolhas individuais que devem nortear nossas vidas, mas que não podem, de forma alguma, ser  impostas a outros pela força ou pelo grito.

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