Bastiões da hipócrita moralidade


Circula na internet e em alguns outros veículos que D. Mônica Allende Serra já fez um aborto. Ela teria comentado o fato para suas alunas do curso de Psicologia do Desenvolvimento aplicada à Dança, na época que lecionava no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Como Sheila Ribeiro, a aluna que acabou revelando o fato, sou solidária a sua dor. Para mim isso não a desabona nem como pessoa, nem como mulher, menos ainda como candidata a Primeira-Dama. Como já disse, sou contrária ao aborto por questões ideológicas, mas não faço juízo de ações que desconheço as motivações. Acredito que abortar sempre envolve um trauma para a mulher.

Foto: Arquivo CDB

O que me parece imperdoável são suas ações presentes. Em primeiro lugar, porque D. Mônica Serra, tendo sofrido na carne as mazelas do aborto, aceitou participar ativamente da baixaria promovida pela campanha eleitoral “demonizadora” de seu marido. D. Mônica Serra disse ao evangélico Edgar da Silva, de 73 anos, que Dilma era “a favor de matar criancinhas”. Isso porque o vendedor ambulante declarou que votaria em Dilma. O episódio deplorável se deu em Nova Iguaçú, município da Baixada Fluminense, onde foi pedir votos para o marido em companhia do destemperado Índio da Costa. Fez lembrar os tempos da ditadura, onde a boataria de que comunistas comiam criancinhas aterrorizava os mais humildes e menos informados.

Questionados sobre suas ações publicamente difamatórias, a primeira reação foi tentar negar. Mas suas afirmações haviam sido gravadas. Era hora então de justificar. E a emenda foi ainda pior que o soneto. D. Mõnica explicou-se aos aliados de campanha que usou a palavra “criancinha” porque o interlocutor não saberia o significado da palavra feto. A típica prepotência elitista, pressupor que toda pessoa humilde é um ignorante manipulável. D. Mônica é uma chilena culta, formada em psicologia, professora universitária, e que, pela própria formação sabe perfeitamente o impacto das palavras sobre o imaginário. Para tentar desfazer-se do flagrante de má fé, usa uma explicação que atesta seu desconhecimento ou seu desprezo pelo povo brasileiro.

Entre as muitas posturas que poderia escolher para si nessa campanha, D. Mônica Serra preferiu a pequeneza de tentar desmoralizar outra mulher, chegando a acusá-la de ser a favor de “matar criancinhas”. Apagou da memória a biografia de seu marido e a sua própria. Esqueceu o fato de que foi José Serra, enquanto ministro da saúde, quem assinou as normas técnicas vigentes para a realização de aborto pelo SUS. Descartou sua formação acadêmica, que lhe permite compreender com clareza que descriminalizar o aborto não é o mesmo que matar criancinhas, e que tamanho simplismo é quase o mesmo que dizer que a existência de políticas para tratamento de drogados é apologia ao uso de drogas. E ainda pior, varreu para baixo do tapete sua própria experiência e o fato de tê-la compartilhado com outras pessoas. Tudo isso para ostentar o dedo acusador de hipócrita moralidade. Daí a indignação de Sheila Ribeiro e seu desabafo no Facebook.

Acostumados a controlar a “grande mídia” que o apóia, José Serra não deve ter se preocupado com a possibilidade desses trechos da biografia do casal virem à tona. Assuntos como esses não seriam noticiados jamais. O que os Serra não contavam era com a repercussão das informações em rede. A mídia dita alternativa fez seu papel, apurou e noticiou. Procurados para comentar o caso, recusaram-se a dar declarações. Serra não sabe lidar bem com perguntas que o contrariam, como já demonstrou em vários momentos. Se é para ele falar, mentir, caluniar, distorcer,ele defende empertigado a liberdade de expressão e de imprensa. Se a polêmica o envolve, acusa jornalistas de “seguirem a pauta do PT”, de fazerem “trabalho sujo”. D. Mônica também calou-se. Pelo menos por enquanto. Ao que tudo indica vale o provérbio: semelhante atrai semelhante.

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