Metade cheio ou metade vazio?


Esses dias eu percebi que estava deprimida. Não é algo a que eu esteja acostumada, acho que por isso mesmo me neguei a reconhecer.  Enconteri uma série de explicações plausíveis para o meu desânimo. O cansaço de uma ano corrido conciliando trabalho, projetos, vida familiar, compromissos de todo tipo, nenhum menos importante que o outro. Mas isso não é novidade, nem para mim nem para outras tupiniquins. É a complexa rotina de toda mulher-mãe que trabalha. E eu já vivi períodos bem mais turbulentos sem deixar a famosa peteca cair. A essa altura já teria produzido e enviado cartões de Boas Festas, ido a todas as confraternizações de amigos e colegas de trabalho, visitado pessoas queridas, me envolvido de corpo e alma em todos os pequenos e gandes gestos que renovam nossas energias nessa época.

O Natal chegava e eu apática. Achei que era a tristeza. No início do mês minha madrinha partiu. Ela foi muito importante em minha vida, de uma maneira especial e acolhedora. Eu pessoalmente não vejo na morte um fim absoluto, mas tinha a certeza da falta que fará sua presença amorosa. Eu chorei muito. Pela perda a princípio, pela saudade eminente e principalmente por todas as coisas que planejei fazermos juntas e não fizemos porque a vida é corrida demais. As lembranças podem doer ou confortar. Algumas vezes essas emoções se misturam. Culpei a dor pelo isolamento voluntário e a palidez em todas as coisas. Mas porque isso?  Eu tinha as lembranças, e elas eram boas, felizes, encorajadoras. Eu tinha o conforto de ter dito a ela o quanto ela era significava para mim. E eu sabia que ela não gostaria de me ver com esse astral em queda livre.

Continuei cumprindo todos os prazos e tarefas inadiáveis. Isso inclui o Natal. Foi no dia de Natal que percebi que estava mais do que cansada e triste. Engraçado foi que disse para meu marido: “não sei bem, mas acho que estou deprimida”.  Todos a minha volta já haviam percebido que eu estava distante e sem ânimo. Apagada mesmo. A gente não percebe e esse abatimento vai se espalhando como rachaduras em nossa estrutura. Somos derrubados repentinamente pelas dores e mágoas que calamos,  pelo sufocamento  das obrigações e desejos que tentamos a todo custo conciliar. Não sei bem o que se recomenda numa situação dessas. Eu optei por desbafar, falar sobre todas as coisas que me afligiam, preocupavam e frustravam. Depois parei para agradecer todas as coisas boas que consegui realizar, toda pequena beleza que a vida me proporcionou. Parei de lastimar a morte e voltei a celebrar a vida para honrar a memória de quem só me fez o bem. Parei de olhar para a metade vazia do copo e comemorei o quanto já havia conseguido encher. Não tenho certeza se isso funciona sempre, ou para todas as pessoas. Está funcionando para mim. Estou retomando pouco a pouco, não a rotina estressante, mas o ânimo inspirador para viver cada momento da vida, esperando fazer dele algo de bom, sonhando, planejando e libertando minhas palavras.  Quem sabe agora termino meu livro?

Share

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s