Yes, nós temos banana!


Barack Obama resolveu nos dar o ar de sua graça. Até aí tudo bem, vez por outra autoridades máximas se visitam para um chá e um acordo. Devemos só permanecer atentos a um detalhe: quase sempre é o visitante quem deseja algo de seu anfitrião. Concordo que algumas vezes governantes aproveitam as facilidades do cargo e as viagens oficiais para o turismo em comitiva e o marketing pessoal em proporções globais. Poderia citar algumas siglas para corroborar nosso conhecimento de causa, mas prefiro me ater a essa visita tão ilustre.

Obama quer discursar em terras tupiniquins, para deixar sua mensagem ao povo brasileiro. Um discurso é até comum: presidentes conversam a portas fechadas sobre assuntos que só saberemos depois, via WikiLeaks, e depois convocam uma coletiva de imprensa em local oficial para seus discursos irmanados e solidários. Acontece que Obama Sam é audacioso e quer ir além, quer discursar espetaculosamente para a multidão arrebanhada no Centro da antiga capital do país. Os preparativos são grandiosos. A emissora platinada, aquela que é subsidiária da Grande Companhia estadunidense, dedica inúmeros momentos em seus telejornais para preparar e envolver o carioca nesse grande, ts ts, evento histórico. Entre um plim e outro, tenta nos convencer da empolgação do cidadão humilde com o sermão dominical em idioma estrangeiro, com o qual não temos qualquer identificação social, ideológica ou cultural.   

Com tantos preparativos, o trânsito caótico do Centro evolui para um cenário pré-apocalíptico. Quem trabalha, ou já trabalhou, no Centro da cidade conhece a lógica da “esticada”: se seu expediente termina às 18hs, a melhor saída para evitar o stress do trânsito na enfadonha viagem de volta ao lar  é a esticada, com direito a cervejinha, aperitivo e muita conversa afiada (é afiada mesmo, acredite). Não é mito não, nem desculpa. Digo por experiência própria: se saio do Centro às oito da noite, com trânsito fluindo melhor e menos pessoas disputando lugar no transporte público, chego em casa muito menos estressada e com pouca diferença de horário de quem saiu às seis em ponto. As pessoas chiques chamam essa estratégia de “Happy Hour”. Eu e meus companheiros tupuniquins vamos de esticada mesmo. É mais compatível com nossos pensamentos e bolsos. E essa semana era a pauta platinada que estrelava nos cardápios de todos os bares, botecos e afins. Parecia querer subverter até a tradicional onomatopéia dos brindes.

Então, estava lá eu sentada, guardando os lugares e aguardando os amigos. Na falta do que fazer comecei a observar a animada mesa de frente a minha. Pela quantidade de pessoas e de garrafas deu para perceber que já estavam várias rodadas a frente das outras mesas. Nessa mesa tinha um Zé, do que não sei, sujeito sorridente, animado, falador. E o assunto era o já imaginado: a presença de Obama. Tinha opinião de todo o tipo, para dar e vender. Então o animado Zé sai com essa: – Sem essa gente, deixa de ser pessimista, é o presidente dos “Istaitês” na nossa Cidade Maravilhosa! Isso serve para trazer investimento, melhoria, escola, tudo de bom. É isso aí, vamos virar primeiro mundo. Vocês também reclamam de tudo!”. O sindicalista ao lado dele (e de frente para mim) engasgou e ficou tão vermelho que por alguns instantes temi tomar uma chuveirada de cerveja.

Enquanto seus olhos flamejavam violentamente, alimentados talvez pelo teor etílico do sangue, ele levantou-se de copo em punho e danou a cuspir vespas e marimbondos. – Tá maluco, Zé! Diz pra mim onde foi que você viu, leu ou sonhou que a gente vai lucrar com isso? A gente sabe que o tal vem, que quer isso e aquilo, que tem que ser assim e assado. Mas o que ninguém disse até agora é A QUE realmente ele vem. Qual é o interesse afinal? Isso aí é que a gente deveria saber, que deveria estar nos jornais.

O Zé, animado que só, ignora os olhares e sinais para morrer o assunto e instiga: – Ué, mas eles são ricos, poderosos, mandam no mundo todo. Deve tá vindo fazer algum negócio. Não é assim que a gente traz riqueza, progresso, emprego bom, essas coisas de primeiro mundo?- Fedeu! Era quase certo do Zé receber ali mesmo, naquele ébrio momento, uma eloqüente e supletiva aula sobre o imperialismo anglo-saxão e seus efeitos destrutivos mundo afora. Uma alma sábia e diplomática interveio com um resumão:- Não dá para saber Zé! A economia deles está muito ruim, tão ruim que faltam empregos para os cidadãos de lá. Se ele veio aqui fazer negócio, deve ser algo que seja melhor para eles do que para nós. Senão arrisca voltar para casa com o dele na reta.

Só que o Zé não se conforma, e nem desiste, tem que ter alguma coisa boa: – Mas ele já confirmou que vai na Cidade de Deus, então pelo menos lá alguma coisa vai melhorar. – Ele vai lá visitar a UPP, Zé. O assunto lá deve ser negociação de tecnologia de segurança pública. Quem sabe até ele quer vender umas arminhas de choque pra PM, sei lá. Além do mais, o Clinton também já visitou a Mangueira, com muito menos frescura de segurança que esse, foi embora e continuou tudo na mesma por lá.

O sindicalista parecia não conseguir se recompor. Ainda de pé, continuava a entoar um rosário de abominações contra todas as formas de colonialismo servil, mas a maioria do que dizia era impublicável em qualquer horário. Nesse momento ele volta ao debate e aproveita para destacar o absurdo elitista do aparato de segurança: estrangeiros determindo o que pode e não pode, cerceando nosso direito de ir e vir, de nos manifestar, inspecionando, fechando o Cristo Redentor e o Jardim Botânico exclusivamente para a comitiva Obamica, transporte público em esquema especial, trânsito alterado, “ensaio técnico” de esquema de segurança, aviões e snipers apontando para nossa gente. – Diz aí, Zé, acha que se nossa presidenta for lá de visita, eles vão dar essas regalias para ela? Nossos militares vão entrar dando uma de patrão, a Estátua da Liberdade vai fechar e vão montar palanque em Nova Iorque? – A pergunta era pro Zé, mas ele fez questão de falar bem alto e olhar para todos a volta. Parecia colher com satisfação cada discreto balançar de cabeça que confirmava a veracidade de sua fala: a coluna apodrecida no misancene das relações internacionais. A minha cabeça também balançou, nem tão discretamente, assim como a de alguns amigos, que a essa altura já haviam chegado e se acomodado, e que, como eu, vez por outra olhava para acompanhar o acalorado debate.

Todo grupo do “estica” tem sempre ao menos um estagiário. Esse não seria exceção. Desolado, ele reclama: – Vocês estão reclamando de barriga cheia. Eu só sei que eu tô ferrado. No domingo vou ter que visitar uma exposição no CCBB, fazer um relatório e entregar na terça. E isso com esse circo armado. Nem sei como vai ser a circulação de trem e ônibus. Alguém tenta ajudar: – Ué, pede mais tempo. Tá todo mundo sabendo dessa confusão aqui no Centro. – Não dá, a professora passou isso deve ter quase um mês, mas era véspera de Carnaval, depois Carnaval, domingo passado eu tava no Monobloco. Agora dancei. Eis que o Zé volta a carga: – Aproveita que vai estar aqui mesmo e fica pro comício do cara.

– Tá doido, Zé! – Nem sei quantos disseram isso ao mesmo tempo. Cada qual com seu motivo: descanso, falta de afinidade,aversão a confusão, anti-imperialismo, e segue a lista. Estranhamente na minha mesa também começaram a topicar as razões para estar em outro lugar que não a cativa Cinelândia. Com certeza você também deve ter os seus.

O Zé está confuso: – Ué, doido porque? Vocês disseram que é capaz da gente não lucrar nada com a visita. Pelos menos vamos no Comício, passear, ver o show. Eu li que a Shakira já está até aqui no Brasil. – Zé, não tem show, não tem Shakira. Shakira nem deve vir ao Rio. É só discurso, a seco mesmo. – Mas não vai ser na Cinelândia? A gente aproveita e toma aquela cervejinha, bate um papo e ainda vê o hômi. – Nada de barzinho Zé. Vão fechar o comércio na Cinelândia e vizinhança. Camelô então nem sonhar. – E se a gente trouxer uns salgadinhos e umas biritas na bolsa, sentar ali do outro lado rua igual hippie e ficar assistindo. – Nada de bolsa Zé. Nem pochete pode. É só identidade e Riocard no bolso. Ficar de pé e calado. Bater palma quando mandarem. E rezar pra nenhum gringo resolver atirar. Agora o Zé já não perece nada animado: – Caraca, que chocho. Quinta e sexta vai ser um inferno o trânsito aqui, para que? Nada de vantagem, nada de Showmício, nada de cartaz de “Tô na Globo”, nada de boteco. Pra piorar isso, só indo em cana porque não aguentou e deu aquela mijada na rua. Banheiro pelo menos vai ter?

Enquanto o Zé, pela primeira vez na noite, jazia cabisbaixo e desolado em sua cadeira, meio copo de cerveja choca na mão, os mais politizados sugeriam várias maneiras de manifestar seu desagrado. Faixas não pode, não iam nem chegar perto. Vaiar poderia justificar um tiro de elite bem na lata. Não ir ninguém era uma boa idéia. Mas como mobilizar a população, se a tv diza para ir? Pela internet, ora. Alguém devia estar mais sóbrio e alertou aos demais para as dificuldades práticas dessa idéia. Teve sugestão de distribuição de apitos em vias próximas e promoção de apitaço, e até de um dar de costas silencioso. As idéias não eram de todo ruins. Mas a dificuldade era sempre a mesma: como envolver o telespectador inocente motivado tão somente pela promessa midiática de prazeroso enlace internacional?

-Eu sei a solução. – eis que o Zé volta a cena, ainda um tanto acabrunhado. – Então diz, Zé. Fala aí qual é a solução? – Muito simples. Esvaziar o evento. Mas não adianta dizer para o povo não vir. Isso ninguém consegue, nem adianta. Aqui no Centro e de graça, o povo vem até pra ganhar injeção na testa. – Tá Zé, e a gente faz o que então? – Se esse tal discurso for do jeito que vocês falaram vai ser tão chato, mas tão chato, que se tiver qualquer coisa mais animadinha o povo vai preferir. Lança um pagodinho popular na Candelária. Aposto que muita gente nem vem até aqui, fica logo por lá.

E não é que o Zé tem razão? Não pudemos deixar de rir e nos delatar como ouvintes intrujões do alheio. Um amigo levantou-se e foi apertar a mão do Zé. Já desmascarados, não havia porque dissimular nossa entusiástica concordância com a simplicidade de sua lógica. Enquanto esperávamos a conta, não sei bem porquê, tirei do baú uma hilária lembrança de bons e saudosos tempos. Os Trapalhões cantando um samba do Paulinho Soares, O Patrão Mandou. Saímos dali cantarolando o refrão inesquecível e, pelo visto, ainda apropriado. Foi como nos despedimos e como me despeço de vocês agora, já antecipando que não estarei nem na Candelária nem na Cinelândia.

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