Fundamentalista sim. Islâmico, duvido muito.


Já na primeira vez que li a carta-testamento de Wellington Menezes, de imediato identifiquei a procedência das referências religiosas ali contidas. Tomei a liberdade de destacar alguns trechos. Acredito que se algum leitor, assim como eu, algum dia parou para ler os folhetos distribuídos pelos fiéis da Igreja Testemunhas de Jeová em suas tentativas de evangelização domiciliar, perceberão a presença evidente dos dogmas da religião em que o perturbado assassino foi educado.


“Nenhum impuro poderá tocar em meu sangue”, relembra um dos dogmas mais polêmicos entre as Testemunhas de Jeová, que se recusam até mesmo a receber doações de sangue em situações médicas graves. Uma autoridade esbaforida, e mal informada, chegou a declarar haver indícios de que ele fosse portador de HIV. As inúmeras referências à pureza, me lembraram alguns dos folhetos que recebi muitas vezes. Nele, uma família reunida em lugar paradisíaco, com um leão mansamente posicionado em meio aos herbívoros e abaixo a frase, por diversas vezes enfatizada como sendo uma promessa, “Somente os puros herdarão o Reino dos Céus”. Há ainda a preocupação em ser enterrado ao lado de onde a “mãe dorme” e que um fiel ore pelo seu perdão para que ele possa na “vinda de Jesus despertar do sono da morte para a vida eterna”. Outro dogma das testemunhas de Jeová, amplamente difundido em suas pregações de evangelização, a promessa da ressureição levada ao pé da letra, tratando a morte como um sono de onde os puros serão despertos por Jesus, para uma vida eterna paradisíaca no Éden que se instalará na Terra. São referências perturbadas à dogmas bem específicos e distintos no universo da fé cristã. A carta continua:


Meu conhecimento sobre o Islamismo é bastante limitado. Infelizmente. Mas do pouco que sei, tenho quase certeza que uma suposta inspiração muçulmana seja contraditória com o desejo de deixar a própria casa para ser transformada em abrigo de animais abandonados nas ruas. Isso porque, segundo a crença muçulmana, cães são animais impuros e amaldiçoados. Concordando ou não com essa prerrogativa, a inconsistência é evidente.

Quanto a tão valorizada barba que ostentou por um tempo, depois da morte da mãe adotiva, duas coisas me vem a mente. A primeira é o desmazelo de uma mente atormentada. Vários podem ser os motivos mas nunca teremos certeza deles. O luto, por exemplo, pode ser um processo doloroso e depressivo mesmo para mentes sãs e preparadas. O que não terá sido para esse indivíduo agora retratado pela própria família como instrospectivo e problemático? E me pergunto, se ele já era “estranho” porque não procuraram tratamento? Vários dos delírios que lhe são atribuídos na mídia foram ditos no âmbito das relações familiares.E o que fizeram? Procuraram um psiquiatra ou algum aconselhamento médico? Aparentemente nada. Com a morte da mãe e o afastamento do convívio familiar, voluntário ou não, não se sabe ao certo, o que restou? Ao que tudo indica, o mergulho delirante em fantasias violentas que culminaram em tragédia. Pedirei desculpas publicamente, se fatos e provas concretas e objetivas demonstrarem o equívoco de minhas reflexões. Mas até o presente momento, a suposta conversão a uma seita suicida muçulmana digital mais parece parte do delírio transformado em estratagema para não macular o fundamentalismo evidente da fé em que o criaram e afastar a culpa da omissão de socorro a um familiar mentalmente perturbado, que acabou vitimando direta e indiretamente centenas de pessoas.

A outra coisa que me preocupa é o caminho fácil e pobre da exploração dos esteriótipos. Não é possível aceitar que um jornalismo dito sério faça uso de associações forçadas para disseminar o medo do outro. O que Wellington fez foi um terror, uma tragédia alavancada pela insanidade delirante. Terrorismo de verdade tem sido a exploração da tragédia pela mídia, especialmente pelo telejornalismo da Rede Globo que durante toda essa semana ocupou a maior parte dos jornais locais com a extração da dor das vítimas e as tentativas de imputar motivação terrorista islâmica ao assassino.

Share

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s