#PRONTOFALEI Velhinhos também podem ser pilantras


Definitivamente a idade avançada não tem qualquer relação com o caráter. Nem é sinônimo, nem aumenta proporcionalmente com o passar do tempo. Foi-se o tempo em que uma cabeleira prateada inspirava automática confiança. Se o sujeito leva uma vida de trambiques, o que a idade lhe acrescenta? Experiência como velho trambiqueiro. Porque essa revolta?

Estava eu em busca de uma casa para alugar quando me deparei com uma plaquinha em um portão. Na verdade, estava visitando casas de imobiliárias, e constatando que a maior parte dessas empresas já descobriu como usar o photoshop.E bem! Meu marido decidiu ligar, estava cansado, a casa parecia boa e o local tranquilo. Escaldados, ele perguntou logo o valor e as condições: dois meses de depósito. Marcamos de ver no dia seguinte.

Na hora marcada encontramos com o proprietário, um senhor franzino, simpático e de fala mansa. Ele nos mostrou a casa. Não era AQUELA maravilha, mas depois de tudo o que tínhamos visto e dos valores pedidos em Campo Grande (é isso mesmo, Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro) pensávamos em fechar negócio. Enquanto tentávamos perguntar detalhes da estrutura da casa e do local, ele falava sem parar, contando suas proezas profissionais no período Vargas e perguntando da nossa vida pessoal e profissional. Não ligamos, nem maldamos. Parecia um idoso querendo um pouco de conversa e atenção. Conhecemos muitos assim e sempre temos muita paciência e respeito, afinal um dia também chegaremos a essa fase.

Ele insistiu bastante, querendo detalhes de nossas profissões. Meu marido é designer, projeta ambientes internos e externos, residenciais e empresariais. A mim, vocês já conhecem, sou essa jornalista, blogueira, escritora e comunicóloga. Somos freelancers, (ou autônomos, ou independentes), não importa o nome dado mas o caso é que no modo CLT não teríamos como pagar o valor pedido. Respondemos a tudo com verdade e tranquilidade.

Ok, então queríamos fechar negócio. Haha, aí é que a porca torce o rabo. Ele começou dizendo que o advogado deveria analisar os documentos e formalizar o contrato, mas quem decidia era ele mesmo. Ok, direito dele. Ele foi falando de cabeça uma relação de documentos, alguns até meio estranhos. Qual o endereço do advogado para levarmos a documentação? Não, não é preciso, bastava fazer as cópias, marcar dia e hora, que ele voltaria ali mesmo, na casa vazia, para pegar tudo e levar ao advogado. Estranho? Piora. Relembramos a ele nossa situação profissional, o fato de trabalharmos sem vínculos, e ele pediu extratos bancários dos últimos seis meses. Já bastante desconfortável, decidi perguntar como seria feito o fechamento do negócio, quais as etapas. Afinal, só tínhamos o endereço da casa vazia e o número do celular da placa do anúncio. Olha que loucura: entregamos os documentos, ele repassa ao advogado, depois nos liga para avisar que o contrato está pronto, marcamos na casa vazia de novo, assinamos e vamos reconhecer as firmas (isso seria tarefa nossa, dos pretendentes a locatários), voltamos com o contrato e o dinheiro, em espécie, ele nos daria um recibo desses de talonário de papelaria e as chaves. Perceberam que se nós, os futuros locatários, quiséssemos verificar algo, ou reclamar, ou mesmo fazer uma simples pergunta, não teríamos qualquer endereço de referência?

Ai, do nada, ele nos diz o valor que esperava receber no dia do contrato. Bem acima do que ele havia mencionado ao telefone. Como? É porque ele queria alguns meses de depósito e o primeiro aluguel adiantado. Mesmo assim o valor não parecia correto. Nessa hora ele usa seu charme de idoso para nos convencer de que entendemos errado o valor do aluguel. Um engano inocente, uma falha na ligação. O valor que teríamos ouvido era de uma outra casa que ele até já havia alugado. Ok, mas porque nós perguntaríamos o valor de uma casa que nem sabíamos que existia? A diferença era de 50% a mais no valor do aluguel. Alôôôo!!!!!! A casa é no Rio da Prata, não na Barra da Tijuca. E daí que vai ter Transoeste? Ela será somente uma via expressa de ônibus, não um teleporte.

Mesmo assim, meu exausto marido decidiu seguir em frente mantendo o negócio e a palavra. Preferiu acreditar que as confusões eram antes fruto de uma origem humilde do que de má fé. Aliás, o senhorzinho destacou por diversas vezes essa humildade inocente que o teria gerado. Dois dias depois nos encontramos bem cedinho na casa a ser alugada, com todos os documentos pedidos em mãos. Já naquele encontro percebi de imediato uma sutil mudança na postura e no modo de falar do nem tão ingênuo proprietário. Estava bem mais determinado, distante, objetivo e com muita pressa. Mais uma vez começou um interrogatório sobre nosso trabalho, como era feito e se a finalidade da locação era mesmo residencial. De humilde e afetivo já não tinha nada. Era um negociante frio, daquele tipo que usa recursos legais para se proteger e brechas para não se comprometer e até desproteger os outros, porque não? Confirmamos que moraríamos ali, mas profissional liberal trabalha muito em casa mesmo. Isso não queria dizer que seria um imóvel comercial, até porque o endereço não favoreceria. Eu segurava o envelope de documentos com força, cada vez mais avessa a entregá-lo. Meu marido lembrou a ele que como ele queria o valor do depósito e do aluguel em espécie, ele precisava nos avisar antecedência pois os caixas eletrônicos tem limite diário para saque, então teríamos que nos organizar para realizar o saque no horário bancário em nossas agências. Nos despedimos e cada um seguiu seu caminho.

Lá pelas duas da tarde do mesmo dia meu celular toca. Justo no momento em que eu estava discutindo um assunto de trabalho com um cliente. Eu precisava ser breve e pedir que aguardasse que eu retornaria a ligação.  Era o senhorzinho. Achei melhor atender logo. O advogado teria dito que as condições dos nossos documentos não eram satisfatórias. “Ok, tudo bem”, eu respondi. Antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, ele foi logo colocando as cartas na mesa, dizendo que ainda podia resolver, mas que precisava de mais garantias. Eu não entendi de imediato e, sem me abalar, repeti que estava tudo bem, que nem sempre as coisas saem como a gente pensa, e perguntei quando e onde poderia pegar nossos documentos de volta. Ele pareceu bastante ansioso quando perguntou se não íamos primeiro negociar uma garantia maior. Foi quando eu entendi que GARANTIA era dinheiro. Que boba. Falei que não, que nesse caso o custo seria muito alto e não nos interessaria mais. A partir daí eu estava falando com outra pessoa ao telefone, ríspida e mal-humorada. Grunhiu que deixaria nosso envelope com uma vizinha e que NÓS tínhamos desperdiçado o tempo dele. Mas hem???

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s