Rabiscos sonolentos


Os últimos dias foram de aventuras e algumas desventuras nesta Nau que tenta bravamente navegar nos verdes mares de nossa amarelada existência. Mas essa exausta escrivã mal pode ainda processar seus estranhos episódios. Que dirá registrar. Senti uma falta imensa deste que se tornou meu diário de bordo, meu companheiro, meu escape.

Cada um tem sua maneira própria de ver, sentir e reagir aos acontecimentos. Minha maneira de não sofrer a cada turbulência ou calmaria excessiva é escrever. Registrar fatos e sentimentos e depois transformar tudo em histórias. São meus  “causos”, meus contos, minhas anedotas. Minha expressão e meu alívio. As palavras são meu refúgio.  Rompem o voluntário silêncio para contar sua versão da vida.

Eu não criei esse blog para mim, criei para minhas palavras. Ele pertence aos pensamentos e sentimentos alvoroçados que teimam em querer alçar vida própria. Minha função é tentar ordená-los, e tão somente isso. Sou muitas durante o dia, comandante e comandada, mas na madrugada sou apenas a escrivã. E se o cansaço me impede de cumprir o humilde compromisso, elas se rebelam. Fazem birra, se unem em orações para me atrapalhar o sono.

Agora mesmo estou exausta. Os olhos mal conseguem ficar abertos. Mas cá estou.  Afinal sou mulher de uma única palavra, ainda que de muitas delas.

Terra dos quadrados


Somos todos tão iguais e tão diferentes. Porque sofre toda essa gente? Porque não pode sentir-se excluída no mudo de sonhos e desejos impossíveis. Então é bom ser igual? Ser como todos os demais é a solução? Não, porque todos querem se destacar em meio a seus semelhantes. O que fazer? Ser diferente? Nunca! Se destacar, não destoar. Tantas regras, tantas leis, tanto sofrimento. Para que afinal se na morte seremos sempre todos a mesma coisa que some? Para garantir a existência que valha! E se, em algum lugar, em algum momento, por sorte ou infortúnio, surgir o diferente? Não pode haver espirais na terra dos Quadrados bem formados. Molde, amasse, domine, e se nada der certo, destrua a imperfeição, a subversão. A sociedade é perfeita, o sistema é perfeito e garante a todos a felicidade perfeita. Impossível tolerar a incógnita, o desvio. Aceite-se como você é e aceite o que digo que é. Não questione, isso é chato e tira a alegria da vida. Submeta-se ou suma-se. Eis o destino dos párias da Terra dos Quadrados. O exílio, que não pode se dar em outro lugar que não seja a Terra das Mentes e Corações que Vagueiam Sozinhos. Escuridão, esconderijo perfeito para as lágrimas que vertem no choro triste dos deslocados. Com quem falar senão com botões… e viva a modernidade,… os botões agora levam a um mundo além das rochas quadradas. Não muito melhor, mas anônimo e escondido em meio a milhões de anônimos que timidamente tentam se revelar. Ser outro torna-se fácil. É possível ser você enquanto mantem seu ajuste e funcionalidade, e é possível ser funcional enquanto se voa livre e solitário rumo às espirais disformes dos magníficos vendavais!

UPA, que sufoco


Nada como um imprevisto para nos dar um choque de realidade.  Precisar de atendimento médico na cidade do Rio de Janeiro é um problema gravíssimo. Meu marido machucou a mão e achou que não era nada demais. Típico dele. Achava que era só mal jeito e que logo a dor passaria. Quando eu vi que estava inchando muito fiquei preocupada. Não tinha como ele ir para o trabalho daquele jeito, nem como deixar para ir ao médico “se piorasse”. Já estava bem ruim. Mas ele é uma pessoa muito prática, gosta de respostas rápidas e objetivas. Em nosso bairro tem um hospital estadual e duas UPAs. Ele de imediato descartou o hospital, por motivos que merecem uma postagem a parte, e decidiu ir na UPA. Se ele estivesse certo poderia ir trabalhar, caso contrário ele receberia um atestado de atendimento público, melhor aceito em empresas que não oferecem planos de saúde. Continue lendo

Onde estarão as borboletas?


Um dia, não mais que de repente, descobri o amor. Nunca havia acreditado que ele pudesse existir para além das páginas românticas.Num breve, ou infinito, cruzar de olhares, descobri o amor. E o medo. Sentir em outros olhos o poder de fazer revelar seus segredos mais profundos,uma ponte magnética para à imensidão da sua própria alma. Saber que para sempre seria assim. Uma revelação aterradora.

Pela primeira vez, ruborizada, desviei o olhar. E me senti fraca e frágil por ter feito isso. Em meu estômago, um milhão de borboletas coloridas revoavam agitadas. E a cada novo olhar, elas lá estavam. E de tanto que se agitavam, o ar se tornava mais denso, a respiração difícil, a fala impossível.

Mas o amor não estava escrito para mim. Não da forma como querem os homens e mulheres. As feridas que trazia me tornaram silenciosa e distante. Amei intensamente, sem jamais pronunciar eu te amo. Mas nunca deixei de dizer em gestos e atitudes, que só eu podia entender. Não perguntei, nem me expliquei, somente amei.

Amar me fez uma pessoa melhor. Capaz de querer bem, de acreditar no outro, de dar sem cobrar, de dizer “seja feliz e até um dia”, com o mesmo olhar silencioso e sereno da breve entrega. Olhar silencioso e sereno que esconde angústias e vendavais, enquanto disfarça a lágrima magoada.

E então eu descobri a dor que pode causar o amor. Intensa, e quase física, rasgando cada canto de meu corpo e minha alma. Eram as borboletas que morriam. Tentei matar o amor antes que ele me matasse. Tudo em vão. Depois de afundar em águas turvas e profundas, consegui voltar a superfície. E descobri que amor não tem cura. Deixei meu coração amar com a serenidade do pensamento, mas as borboletas, estas, coitadas, partiram para talvez nunca mais voltar.

Quer ser meu amigo no Orkut?


Perdi-me no silêncio de meus pensamentos. Dezenas de pessoas ao meu redor, e eu me sentindo tão só. Olhei em volta e pensei haver algo errado comigo. Deveria estar interagindo, curtindo,trocando idéias, fazendo parte. Mas parte de que? Em minha mente o burburinho cessou e pude observar as pessoas com maior atenção. E foi então que percebi que não era a única que estava só. Todos estavam. Tentavam ansiosamente fazer parte de algo, qualquer coisa, para poderem sentir-se conectados ao Mundo e ao Outro, esse ser imaginário tão importante que dá sentido às nossas vidas. Continue lendo