Um Anjo no asfalto


Ele vinha caminhando, perdido na noite, alheio a tudo a sua volta. De repente, um par de olhos lhe chama a atenção. O curioso é que não são olhos especiais, nem cheios de vida, tampouco são os olhos da mulher amada. São olhos comuns, tristes e carentes, vazios de esperança. São os olhos de uma criança sofrida. Um anjo do asfalto!

Durante o dia não podemos avaliar a tristeza deste olhar, mas à noite, quando todos se recolhem em suas casas, é que eles aparecem, em cada esquina, embaixo de cada marquise, nas portas dos bares. São famintos de amor e esperança.

Foi só um lampejo, um instante, rápido e fulgaz, e ele viu tudo isso, mas como todos nós, seguiu seu caminho. Resolveu parar em um bar, pediu um chopp e entregou-se a seus pensamentos. Parecia que nada fazia sentido. Tinha um bom emprego, uma casa, uma vida agradável, mas sentia um enorme vazio dentro de si. Era como se tudo o que já fizera não tivesse significado no livro da vida.

Como que saído do nada, eis que surge novamente o anjo, faminto, com frio. E ele só observa. Aquela figura magricela e tímida lhe pede comida. Num arroubo manda o anjo de olhos sofridos sentar. Pede que lhe conte a sua história enquanto come. Antes não o tivesse feito! Tudo o que vivera não lhe preparara para enfrentar tão dura realidade. Como podia uma criança tão franzina já ter vivido e sofrido tudo aquilo? Como podia já ter visto o que ele, que se considerava um homem vivido, só via em jornais e na televisão?

A vida daquele anjo daria um livro se pudessem publicá-la, mas seria um livro de terror e violência, de incompreensão e desamor. E mais que tudo de preconceito e abandono social.

Perguntou-lhe por seus pais. Nem mesmo os conhecera. E quem cuidava dele? Se “virava” por aí. Perguntou-lhe se gostaria de ter uma família, e num lampejo aqueles olhos tristes se tornaram tão infinitamente meigos, que o emocionou. O anjo só disse “sim”, sem dar razões, sem fazer pedidos.

Uma estrela cruzou o céu e uma louca idéia iluminou seu ser. No maior gesto de coragem de sua vida, ele levantou e deu a mão ao anjo. Já não havia vazio em seu coração, a solidariedade e a humanidade o haviam preenchido. “Venha filho!”, foi tudo o que disse e não precisou dizer mais nada. A infinita percepção infantil se encarregou do resto. E juntos, de mãos dadas, caminharam pelo asfalto para uma nova vida.

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Obrigado meus amores


Obrigado meus filhos,

Por ter te aconchegado em meu peito,

Pelo toque meigo em meus cabelos,

Pelo abraço confiante de que eu tudo poderia resolver,

Por acreditarem em minhas histórias para dormir,

Pelo elogio à comida tão igual a tantas outras,

Pelos cartões de maõzinhas pintadas e letrinhas trêmulas,

Por buscar o alimento em meu corpo, minha mente e minha alma,

Pelas mãos dadas para não nos perdermos nas ruas,

Por exigirem que eu os deixe crescer,

Pelas fotos nos álbuns que guardo para a velhice,

Por crescerem fortes, firmes, determinados,

Pelos adultos que se tornam sem esquecer a criança que foram,

Pelo sorriso que finda a ansiosa espera,

Pelo orgulho de todos os dias,

Por me fazer sentir que deixarei algo de mim em cada um de vocês,

E acima de tudo,

Obrigado meus filhos, simplesmente por serem meus amados filhos,

E terem enchido minha vida com a felicidade de ser Mãe, Mãe de vocês!


Quando eles crescem?


Ontem, depois das correrias habituais fui encontrar com minha filha. Ela queria me comprar um presente de dia das Mães, e queria que eu escolhesse e experimentasse. Estava muito feliz por ter ganho um aumento de salário no mês passado. Eu estava exausta e não me sentia muito bem, mas não queria desapontá-la. Ficamos horas andando, entrando e saindo de lojas. Aprendi uma lição interessante: é bem difícil ir com um filho escolher algo para si. Motivo? Pensamos como mães e nos perguntamos o tempo todo: “será que não vai pesar demais no bolso?”, “o que será que ela/ele vai ter que deixar de lado esse mês para me comprar isso?”, coisas desse tipo. Ela começou me pedindo, e depois até exigindo, que eu não olhasse etiquetas e preços. Eu não conseguia evitar.

Por fim, com o comércio já baixando as portas, conseguimos comprar uma linda bota. Eu adoro botas e ela sabe. Eu sorria por dentro quando ela tomou a frente, pediu modelo e tamanho. Eu sentei, esperei, experimentei, gostei e voltei a esperar enquanto ela finalizava a compra, pegava a nota e pagava. Era visível a satisfação que ela sentia. Com a bolsa nas mãos, ela sorria, cabeça erguida e cheia de atitude. Fiquei olhando maravilhada. Minha menina já é uma mulher, determinada e poderosa. Me enchi de orgulho e nostalgia. A corujice faz parte do instinto materno e eu queria dizer aos quatro ventos:”Tá vendo essa moça? Essa produtora de eventos, essa cidadã? Essa é a minha garotinha!”.

Chegamos em casa exaustas. O resto da noite fiquei lembrando dos tempos em que eu arrumava aqueles cachos com cuidado, dos vestidos bordados que faziam ela parecer uma bonequinha, dos presentes improvisados que me faziam chorar, das preocupações e das alegrias. O tempo passa depressa demais para uma mãe. E cada minuto é precioso. Na volta eu pensava em fazer algo especial para o domingo. Uma singela homenagem àqueles que me enchem de felicidade simplesmente por existirem. Talvez eu faça um bobó de camarão no capricho. Se ficou com água na boca passa por aqui mais tarde que eu vou postar minha receita e uns truques.